O México voltou a sediar partidas da Copa do Mundo em 2026, mas, na relação com o Brasil, é a competição de 56 anos antes que continua ocupando o imaginário coletivo. A recente série Brasil 70: A Saga do Tri, lançada pela Netflix, é apenas mais um exemplo de como o Mundial de 1970 segue sendo revisitado como um dos capítulos mais marcantes do futebol brasileiro.
Há, porém, uma história musical menos lembrada dessa temporada. Para além da onipresente — e impossível de dissociar da ditadura militar — “Pra Frente Brasil”, a Copa viu uma verdadeira invasão, fosse na Cidade do México ou em Guadalajara, de músicos brasileiros, além de produtores, jornalistas e empresários ligados à nossa indústria cultural. O resultado foi uma pequena febre de lançamentos fonográficos, apresentações e intercâmbios que ampliaram a presença da música brasileira no país e a propulsão de nossos artistas para o mercado norte-americano.
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Esse circuito vinha sendo explorado desde meados dos anos 1960 por artistas como Carmen Costa e Leny Andrade. Mas a Copa acelerou o processo e apresentou ao público mexicano uma imagem do Brasil que já não se limitava à linguagem comportada – e, naquela época, já bem ligada ao gênero easy listening, a “música de elevador” – da bossa nova. Era um Brasil mais afro-atlântico, percussivo e conectado às circulações musicais da diáspora negra.
A história do jazz brasileiro e a ditadura ajudam a explicar esse fenômeno: o ambiente de cerco às casas noturnas a partir de 1968 e o aprofundamento da repressão surtiram efeitos diferentes em produções musicais nacionais mais ligadas ao jazz. Enquanto a MPB, embora amplamente perseguida e censurada, paradoxalmente também ganhou destaque nos veículos de imprensa que se amplificavam nos anos 60, pela contestação ao regime, os músicos de jazz brasileiro que viviam sobretudo de gigs na noite, gravações e aulas, tiveram seus trabalhos reduzidos de uma forma mais sorrateira.
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Foi assim que muitos desses artistas, conectados com outros músicos que já vinham migrando para o circuito fonográfico dos Estados Unidos desde o estouro da bossa nova por lá, buscaram contornar as dificuldades financeiras e, de quebra, começar uma carreira internacional.
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Desde os anos 1930 e 1940, o circuito de traduções e regravações entre canções mexicanas e brasileiras estava estabelecido – com a versão de “Cielito Lindo” (Quirino Mendoza y Cortés) por Henricão e Rubens Campos, por exemplo, que virou o sucesso de carnaval “Está chegando a hora” na voz de Carmen Costa. Pois a cantora também estava lá, bem antes de 1970, cantando “Yo se que te he de amar”, versão em espanhol de Tom e Vinícius, e “La Mentira” de Alvaro Carrillo numa turnê que virou o disco Carmen Costa En México, de 1966, relançado pela Polydor em 2009.
Amiga de Dizzy Gillespie, Bola Sete e Lionel Hampton, Carmen chegou ao circuito musical do México a partir de shows na “Casa de la Paz”, além de aparições em programas de TV e outros concertos – provavelmente, envolvendo o circuito de hotéis, da mesma forma que seus colegas brasileiros passariam a dominá-lo, anos depois, assistidos por plateias seletas que envolviam empresários musicais e outros agentes.
Leny Andrade também chegou em 1966 e tornou-se outra estrela brasileira no país, à frente do grupo de bossa nova Gemini V, com Pery Ribeiro e o Bossa Três, composto por Luiz Carlos Vinhas, Octavio Bailly e Ronnie Mesquita. Em entrevista a Rodrigo Faour, a cantora lembra-se de sua temporada mexicana, que até 1972, foi um período de muita fama, sucesso e conforto. A banda gravou “Gemini V En Mexico”, em 1966 e a cantora também lançou um álbum solo pela RVV mexicana – Leny Andrade. A gravadora, do empresário mexicano Rogelio Villareal, estava ligada ao seu grupo de hotéis Camino Real, em que boa parte dos brasileiros se apresentava. Mesmo em um país hispanohablante, a carioca fazia questão de manter seu canto em língua portuguesa, um feito grande para o mercado musical daquela época, que exigia traduções e versões em inglês e espanhol da bossa nova.
Já em 1968, Elza Soares aceitou o convite de sua amiga Mercedes Baptista, bailarina negra envolvida nas lutas pelo ativismo negro, que tinha aceito um outro convite da bailarina estadunidense Katherine Dunham para participar de uma companhia no México. Certificada de que seria tranquilo viajar para a região, que ela temia pela violência dos supremacistas brancos, Elza então partiu em julho, acompanhada de Geraldo Vespar, Sérgio Barrozo, Dom Salvador e Wilson das Neves, para uma turnê que passou pelo Waldorf-Astoria, hotel dos mais conhecidos de Nova York, num “baile de carnaval” à brasileira, e também pelo México, show que coincidiu com um dos amistosos da seleção brasileira contra a seleção local, conforme consta na lembrança fotográfica do músico Dom Salvador. Foi nesta viagem, segundo me contou o pianista radicado em Nova York, que lhe aconselharam a ficar para tentar a carreira nos Estados Unidos – coisa que ele faria a partir de 1973.
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“Qualquer estrangeiro desavisado que passasse pela Cidade do México, entre 1968 e 1971, poderia achar que era ali, e não Buenos Aires, a verdadeira capital do Brasil”, afirma o jornalista, pesquisador e historiador do jazz Arnaldo DeSouteiro num texto para a reedição do disco Saravá!, de Carlos Lyra. Entre os nomes que DeSouteiro elenca no México naquele período, estavam: Flora Purim e Lennie Dale (que fizeram parte, em alguns momentos, da banda La Familia Sagrada, reunida por Luiz Eça); Osmar Milito; Breno Sauer; Ely Arcoverde; os grupos Alegria Alegria, de J.T. Meirelles; Brasilia 71, de Papudinho com a cantora Zezinha Duboc; Vox Populi (Helvius Vilella, Normando Santos, Fernando Leporace, Guto Graça Mello) e o vocal Anjos do Inferno (com Leo Villar, Nanai, Roberto Paciência etc). Além desses, Eliana Pittman e Antônio Adolfo e a Brazuca (Luis Cláudio, Victor Manga, Luizão, Bimba e Julie).
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Em 1969, chegaria também João Gilberto com Miúcha e Chico Batera – numa temporada que seria de dias, mas durou dois anos –, além de hospedagens longas de Sergio Mendes, Walter Wanderley e a presença de Milton Nascimento, com Eumir Deodato, Airto Moreira e Bola Sete, para se apresentar no I Festival de Música Brasileira e Americana.
A ida desses músicos animou sobretudo o circuito dos hotéis, numa febre de música brasileira que explodiu ainda mais conforme o time ganhava tração na copa. Isolados no Brasil num cenário em que já não se queria saber do jazz brasileiro, como se recordou Luiz Eça numa entrevista ao Pasquim, a saída era pelo aeroporto: “Quando voltei ao Brasil, encontrei uma turma de compositores jovens que queriam fazer alguma coisa e me dizia: – Nós estamos sem trabalho, a televisão não quer saber de nós (…) aí começou aquele negócio de brasileiro que adora fazer reunião para discutir mil coisas, falar de tudo, mas trabalhar, que é bom, nada. Então, na terceira reunião eu disse: não tem mais reunião, coisa nenhuma. Hoje, é a última. Terça-feira tem concerto na Cândido Mendes. Fizemos o concerto – bem ou mal, não interessa, foi um sucesso enorme, todo mundo aplaudiu de pé. No dia seguinte, o papaizinho aqui seguiu para o México”.
Com a enorme La Familia Sagrada, Luiz Eça fez temporadas no grupo de hotéis Camino Real, por onde registrou o álbum Luiz Eça y La Familia Sagrada, também pela RVV. Seguindo a trilha de Sergio Mendes, então um grande nome no mercado norte-americano, a formação de bandas grandes, com vocais femininos e uma sessão percussiva mais acentuada, vinha se consolidando.
Assim como a Brazuca, de Antonio Adolfo, e Sergio Mendes desde o lançamento de Ye-Me-Le (1969), buscava-se enfatizar os coloridos afro-brasileiros das claves na percussão e suas aproximações com o funk norte-americano, em sintonia com a trilha sonora dos movimentos por direitos civis de lá. Assim, a bossa nova que já circulava com muito sucesso no país, ganhava ares renovados e afro-brasileiros. A principal fonte de novos hits era os festivais da canção, onde o próprio Sergio retornava todo ano para caçar novos talentos e novas canções. Ainda assim, houve espaço para João Gilberto, que gravou o seu clássico João Gilberto en Mexico em 1970, e também, mais embalado pela cultura dos boleros, Altemar Dutra.
Desse circuito, que com certeza merece ser melhor explorado, ficaram alguns registros em disco lançados sobretudo em 1970:
João Gilberto – Joao Gilberto En Mexico (Orféon, 1970)
Disco com arranjos de Oscar Castro-Neves, que, nesta época, já vivia em Los Angeles. Surgiu da amizade e troca entre João Gilberto e o empresário e produtor fonográfico Mariano Rivera Conde – que por sua vez era casado com Consuelo Velásquez, autora de “Besame Mucho”, gravada no disco. O ambiente de convívio com o poderoso casal da música no México, na verdade, é descrito por João no texto da contracapa do álbum como de maior naturalidade: “Mariano me convidou para fazer um disco com ele, de maneira mais hospitaleira. Fui ficando, de repente, estava morando mesmo. Fiquei mais de um ano. O México é uma maravilha. Já vi galo cantando no meio do dia, da tarde, de madrugada, de noite – há quanto tempo eu não via isso. Gato, galinha, carneiro, pato, papagaio, 17 perus, cachorro, tem uns 12; é tudo de um senhor que mora aqui embaixo, no barranco (…)”
O álbum também tem bateria e percussão de Chico Batera, e encanta pelas versões de clássicos latinos (“Farolito”, de Agustin Lara, “Eclipse”, de Ernesto Lecuona, e a própria “Besame Mucho”, fora a sua “Acapulco”). No Brasil, o disco foi lançado pela Philips em 1970 e depois retirado do catálogo, por uma interrupção do contrato com a Orfeon mexicana. Foi relançado pela Tapecar cinco anos depois.
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Tamba 4 – Tamba 4 (Orféon, 1970)
Também produzido por Mariano Rivera Conde, reúne o Tamba 4 no México, sem Luiz Eça: Laércio de Freitas assume o piano e também divide as flautas com Bebeto Castilho. Rubens Ohana e Dório Ferreira completam o quarteto. Chama a atenção neste álbum a gravação de músicas que ainda não circulavam internacionalmente, como “Correnteza” e “Juliana”, de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar; “Sem Você Não Vivo”, de Cassiano; “Lenga-Lenga”, de Laércio de Freitas. O circuito funcionava a partir da projeção nos festivais da canção: Antônio Adolfo e a Brazuca, por exemplo, já haviam sido destaque em festivais de 1968 e 1969.
Luiz Eça – Luiz Eça y La Familia Sagrada (RVV, 1970)
Separado do Tamba, não estranha que Luiz Eça estivesse tocando um repertório bem parecido com o álbum do seu ex-grupo, como “País Tropical”, “Juliana”, “Sá Marina”, “Se Você Pensa”. O músico reuniu um time de peso para apresentar este Brasil mais afro: Naná Vasconcelos na percussão e voz, Nelson Ângelo nas cordas, Maurício Maestro no baixo, Getúlio Pereira na bateria, Zeca do Trombone, Claudio Roditi, Bill Vogel, José da Silva e Ion Muniz nos variados metais e backings de Carminha, Rose Marie, Angela Viana e Joyce. Nelson, Maurício e Naná também assinavam os arranjos, com direção musical de Luiz Eça.
Vários destes músicos, como Ion Muniz, Roditi e Naná, depois seguiriam para temporadas nos Estados Unidos. No caso do pernambucano, com Gato Barbieri, no cenário do jazz latino. Vale lembrar, aliás, que a reunião de Naná, Joyce, Nelson Angelo e Novelli aconteceu antes no Rio para o psicodélico e seminal A Tribo. Deste grupo, desdobraram-se diversas parcerias, seja esta com Luiz Eça ou a de Naná e Novelli com o violonista Luiz Bonfá, que em 1970 voltou ao Rio para renovar sua sonoridade e acabou chamando a dupla para as gravações do também ótimo The New Face of Bonfá.
Wilson Simonal – México’ 70 (Odeon, 1970)
Wilson Simonal explodiu ainda mais em 1969, quando foi contratado para abrir o último show da turnê de Sergio Mendes no Brasil, no Maracanãzinho, e roubou a cena e ganhou o público de dezenas de milhares de pessoas. O músico então foi contratado pela Shell, que havia patrocinado a turnê de Mendes. A petroleira também estava envolvida com a promoção do seu outro garoto-propaganda, Pelé, segundo conta Ricardo Alexandre na biografia “Nem vem que não tem – A vida e o veneno de Wilson Simonal”.
Simonal então esteve no México por mais de um mês durante a Copa, apresentando-se na boate El Dorado, em Guadalajara e na Cidade do México, em contrato com o Hotel Camino Real de Rogerio Villarreal. Ele tocou em diversas das comemorações pós-jogos e na noite de celebração do tri, junto com os jogadores do time do Brasil, num show que “virou carnaval”, segundo os jornais da época. O músico seguiu retornando ao México para outras turnês e depois disso foi convidado por Sergio Mendes para lançar um disco nos Estados Unidos, que acabou não acontecendo.
Carlos Lyra – Saravá (RCA Victor, 1969)
Instalado no México depois de ter feito turnê no país com Stan Getz, Carlos Lyra se envolveu na cena teatral da cidade, além da bossa nova. Viu o sucesso do seu musical infantil “O Dragão e a Fada”, que ganhou diversos prêmios e foi adotado pelo governo mexicano, e trabalhou na adaptação da sua “Pobre Menina Rica”, traduzida por Gabriel García Márquez e Francisco Cervantes. A montagem tinha Leny Andrade e o Bossa 3 no elenco, e também ganhou versão para a TV. Participou de trilhas para o recital “Cântico dos cânticos”, para “La Cueva de Salamanca”, de Don Juan Ruiz de Alarcón e para a peça “Fuenteovejuna”de Lope de Vega. Em 1969, ele gravou “Carlos Lyra… Saravá!”, em meio aos ensaios de “Pobre Menina Rica”.
Sobre a temporada mexicana, disse numa entrevista de 2019: “Foi uma fase muito rica da minha vida. Eu era tão bem-quisto que fui convidado pela Coca-Cola para ser El niño Coca-cola (…) Me davam uma casa em Acapulco, carro com motorista, um salário, um cartão de crédito para eu usar à vontade e ainda um helicóptero (…) uma proposta incrível, mas junto a ela a condição de não cantar minhas músicas como Maria Moita, Marcha da Quarta-feira de Cinzas, Canção do Subdesenvolvido e outras que iam de encontro à “linha” da Coca-Cola. Como sempre, minha integridade falou mais alto, pra desespero do meu empresário na época”
*Paula Carvalho é jornalista e socióloga. Estudou a migração e circulação de músicos do jazz brasileiro nos Estados Unidos nos anos 1960 e 1970 em sua tese de doutorado em Sociologia na USP.

