Como dizem os filósofos de Instagram: nenhuma experiência é individual. Basta começar qualquer show para vermos centenas de celulares apontados para o palco. Há aquelas pessoas (imagino que muitas) que sequer assistem aos vídeos depois, servindo apenas para ocupar a memória do celular. Outros postam instantaneamente, o que os impede de viver o momento — mas provam que eles estavam lá, o que deve ser o que importa. Tem até os mais ousados, que já abrem uma live. Mas recentemente, alguns eventos — incluindo shows! — Estão indo na contramão desse hábito e proibindo o uso de celulares para fotos e gravações. Visto que já se trata de um hábito que ultrapassa gerações, fica a dúvida: será que essa moda pega?
Recentemente, Phoebe Bridgers transformou o fenômeno em um dos motes para sua volta aos palcos. A cantora realizou um show surpresa no Madison Square Garden, com ingressos a partir de US$ 1 revertidos para apoio a imigrantes detidos — e proibição total de smartphones. Os 20 mil presentes tiveram os aparelhos selados antes de entrar, e Bridgers se apresentou sentada num sofá, tocando oito faixas inéditas para uma plateia que não tinha para onde olhar a não ser para o palco.
A experiência se estendeu para a The Lost Tour, sua turnê pela Europa: todos os shows seriam phone-free. O debate que se seguiu nas redes foi, ironicamente, enorme. Houve quem criticasse a falta de liberdade, mas também muita gente afirmando que assistir a um espetáculo sem celular foi uma “experiência transcedental e quase divina” — que deve ser mesmo o sentimento de alguém muito jovem curtindo um show sem celular pela primeira vez na vida.
Mas a cantora não foi a primeira a adotar essa tendência. Logo quando os smartphones se popularizaram, nos anos 2010, Prince já era um crítico ferrenho da tecnologia. Dizia que era antitelular, não fazia questão de ter um e ainda proibia quem os usasse para filmar os shows. Se na época ele foi visto como radical, hoje há quem siga seus passos.
Em 2018, Jack White anunciou que sua turnê norte-americana seria uma experiência “100% humana, livre de celulares”. “Achamos que você vai curtir mais olhar para cima, longe dos seus gadgets, e vivenciar a música e nosso amor compartilhado por ela ao vivo”, dizia o comunicado oficial.
Ao defender a medida, White comparou o show de rock a outros contextos em que o celular já fica guardado naturalmente: “Você vai ao cinema e todo mundo desliga o telefone. Na sinfônica, sem celular. Na igreja, sem celular. Vamos tentar num show de rock e ver o que acontece”, disse na época ao Toronto Star. “As pessoas nem conseguem aplaudir mais, porque elas estão digitando a merda de um texto”, disse.
No ano seguinte, Madonna passou a restringir o uso de celulares durante a tour de Madame X — as instruções já apareciam no ingresso dos shows, para ninguém dizer que não foi avisado. Para a estrela pop, a proibição não parecia nada demais, já que em espetáculos de teatro e mesmo Broadway as pessoas já não podem filmar a apresentação. Ainda assim, alguns fãs insistiam em levar o aparelho escondido para capturar um pouco do show.
Madonna foi direta: “Estou curtindo cada minuto dessa experiência intimista, de olhar para a audiência e não ver flashes de iPhones e de câmeras, mas, em vez disso, olhos, sorrisos e rostos humanos felizes”, escreveu em seu Instagram. “Entretanto, estou confusa com pessoas que insistem em filmar escondidas, desrespeitando meu pedido. Se você não pode viver sem seu telefone por duas horas, essa experiência não é para você”.
A tendência vai na contramão do uso cada vez mais popularizado dos smartphones. A pandemia de Covid-19 intensificou a dependência dos aparelhos ao obrigar milhões de pessoas a manter trabalho, estudo e relações sociais por meio das telas. Segundo a GSMA, o número de usuários de smartphones no mundo cresceu de cerca de 3,6 bilhões em 2020 para mais de 4 bilhões nos anos seguintes. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que a parcela da população com 10 anos ou mais que tinha celular para uso pessoal passou de 77,4% em 2016 para 88,9% em 2024, chegando a 167,5 milhões de pessoas.
Clube dos Offline
Por aqui, os eventos sem celular se restringem a espetáculos de teatro, audições de disco e outros momentos em que o registro pode comprometer o ineditismo, como nas gravações do Tiny Desk Brasil. Nelas, os jornalistas, produtores de conteúdo e convidados da plateia precisam lacrar seus telefones antes de entrar no estúdio, impedindo o uso dos aparelhos por pouco mais de 30 minutos.
Já na Europa, o hábito de lacrar celulares vem sendo cada vez mais comum. Por lá, ficaram populares as bolsas da marca Yondr, cases com trava magnética que permitem levar o celular, mas sem conseguir mexer nele durante a apresentação.
Na Holanda, só cresce o número de pessoas que buscam se desconectar da vida online para criar conexões reais — ou simplesmente ficar um tempinho sem ver a última notificação do aparelho. Um exemplo é o Offline Club, idealizado em 2024. O projeto, idealizado (veja só) por um gerente de marketing, promove eventos em cafés e bibliotecas onde o uso de celular é proibido.
Funciona assim: por módicos 14 euros (cerca de 80 reais), a pessoa chega, lacra seu telefone nas bolsas Yondr e se permite ficar algumas horas lendo, ouvindo uma discotecagem em vinil ou conversando com a pessoa ao lado sem ser interrompida por notificações.
O projeto vem ganhando cada vez mais adeptos, e já se espalhou para a França e Reino Unido. “Nós não somos contra a tecnologia ou contra as redes sociais. Somos contra o excesso”, conta o sócio do projeto, Ilya Kneppelhout, à revista Piauí. Será que essa moda pega?


