A discussão vinda dos fóruns e sites dedicados à audiofilia, sobre streaming em alta definição, ganhou novos contornos. Se, por um lado, o mercado fonográfico testemunha uma ascensão dos discos de vinil, por outro, os streamings tentam capturar esse público prometendo o ápice da fidelidade sonora em arquivos digitais de altíssima resolução, sem perdas (lossless). Plataformas como Tidal e Qobuz, por exemplo, vendem a ideia de igualar a qualidade analógica através de transmissões em HD.
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No entanto, uma recente investigação do portal Headphonesty revelou que essas empresas, por vezes, distribuem arquivos catalogados como “alta definição”, que na verdade consistiam em áudios extraídos de discos de vinil antigos e desgastados, maquiados digitalmente. A alegação da Qobuz é que, quem sobe os arquivos e os cataloga são as próprias gravadoras. Ou seja, os arquivos não passam por um crivo prévio da plataforma, o que amplifica a problemática em torno do tema.
Para destrinchar o que é ciência de estúdio, o que é marketing corporativo e até onde vai o peso da experiência musical, conversamos com especialistas: o engenheiro de som do NRC, Marcos Abreu, a produtora e artista Maria Beraldo e o produtor musical e diretor do selo Risco, Gui Jesus Toledo.
A ilusão da resolução
O primeiro grande embate técnico reside na promessa do streaming em alta definição. Tecnicamente, a entrega de arquivos de 24 bits e taxas como 96 ou 192KHz é real, mas esbarra no acesso às matrizes originais. “Vender a ideia de alta definição é possível desde que se tenha acesso a masters com mais definição”, nos explicou Marcos Abreu. Ele pontua que, para obras antigas, o processo exige uma redigitalização das fitas analógicas originais para sistemas digitais de alta capacidade — ou mesmo para o DSD, formato de altíssima fidelidade.

“O problema está em querer igualar isso ao vinil. Por ser produzido e reproduzido de forma mecânica, o vinil é totalmente sujeito ao hardware: da máquina de corte ao toca-discos. O mesmo disco não soa igual em dois aparelhos diferentes. Eles entregam alta definição, mas igualar os formatos é bem difícil.”
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A cantora e produtora Maria Beraldo concorda que as mídias possuem limitações e especificidades físicas muito claras, mas ressalta que a assinatura sonora nasce muito antes de a música chegar a de streaming. “As escolhas se dão em muitas etapas do processo: na escolha da sala, do microfone, da posição dele, do pré-amplificador, do instrumento e da interpretação”, afirma. “Para traduzir o calor da interpretação, é preciso que haja calor na interpretação.”
A “higienização” atual dos estúdios
“Muitas bandas gravam tudo no digital, limpam tudo e depois têm a expectativa de que o vinil traga automaticamente todo esse trabalho e relação. Acaba que ele vira só uma tradução de suporte”, provoca Gui Jesus. Além disso, o produtor critica o modelo de produção atual que, segundo ele, pasteuriza o mercado fonográfico sob as regras do mid-stream e do mainstream. “A música hoje é tão higienizada que você não sabe se é um baterista tocando ou um loop de computador. Tiraram a respiração do cantor, o mini-erro, a sujeira. Minha escola vai no caminho oposto. Eu não compito com a ‘guerra do volume’ do streaming; a música precisa de dinâmica baixa, de pausas e silêncios para que as partes altas tenham impacto. O silêncio e a ausência também são som.”
Maria Beraldo acrescenta que lidar com as limitações físicas do formato analógico exige concessões. “Fazer um disco totalmente analógico significa gravar em fita. Se não é o caso, fazemos uma masterização específica para que o disco feito no digital caiba no vinil. O vinil tem limitações físicas que nos obrigam a cortar frequências de agudos e graves, por exemplo”, explica a produtora.
Entre o elitismo, o fetiche e o abraço ao álbum
Mesmo quando tocados em aparelhos portáteis de baixa fidelidade que não traduzem o potencial do formato, o vinil cumpre um papel político e estético crucial: o resgate da audição atenta.
“O vinil é uma defesa do formato que chamamos de álbum, uma estrutura que vem sendo enfraquecida pelas lógicas do mercado digital onde nada mais pode demorar”, defende Maria Beraldo. “O formato permite que as pessoas ouçam música fora do celular, longe das telas. Envolve a arte gráfica, que é tão importante quanto a música, a leitura da ficha técnica. É um espaço para se demorar.”
No fim, a experiência sensorial molda a audição. Marcos Abreu conclui que todo o ritual de parar, escolher o disco, ler o encarte e manusear o objeto altera fundamentalmente a percepção psicológica do som. “A assinatura sonora vem de todo o processo, de ponta a ponta: da matriz, do corte, da prensa, da cor do plástico, da agulha e até do tapete do prato. É um ritual muito mais complexo e rico do que simplesmente escutar música de um celular conectado a um fone de ouvido bluetooth.”
