O anúncio de que a PlayStation deixará de produzir mídias físicas até 2028, priorizando a distribuição digital, reacendeu o debate sobre preservação e colecionismo entre os fãs desse universo. Em meio às discussões, uma coisa permanece intacta: as trilhas sonoras que ajudaram a transformar os jogos em clássicos. A transição de mercado visa transferir todo o consumo de software para servidores proprietários e para as assinaturas na nuvem.
A reação imediata da comunidade e de historiadores de mídia levantou alertas sobre a frequência das variações de preço de catálogos puramente digitais, sujeitos a contratos de licenciamento e exclusões sem aviso prévio. À medida que o formato em disco perde espaço no planejamento corporativo, as obras musicais desses jogos tornam-se importantes registros históricos da cultura das respectivas franquias.
Há décadas, os consoles despertam um forte sentimento de nostalgia – e grande parte dessa memória passa pela música. As trilhas sonoras definem o clima, intensificam a narrativa e transformam cada conquista em uma lembrança.
Em The Last of Us, por exemplo, Gustavo Santaolalla recorre ao ronroco e aos silêncios para traduzir a solidão do pós-apocalipse. Já Bloodborne ganha força com a atmosfera sombria criada por Yuka Kitamura e Ryan Amon, enquanto Demon’s Souls amplia essa grandiosidade com os arranjos orquestrais de Shunsuke Kida. Abaixo, confira cinco trilhas sonoras queridinhas dos jogadores, entre as mais colecionadas na plataforma Discogs:
Shadow of the Colossus – (2005) – Kow Otani
A engenharia de som adaptativa proposta por Kow Otani para o clássico de 2005 pode ser considerada uma das maiores lições de narrativa musical da indústria. Rompendo com a tradição de manter temas repetitivos de fundo, Otani utiliza o silêncio e o som do vento como preenchimento acústico do mapa vazio, gerando um contraste de isolamento opressor. A catarse sonora se desenha na hora do combate: arranjos monumentais de metais e coros imponentes, como a faixa de abertura “Prologue ~To the Ancient Land~”, surgem de forma dinâmica para ditar a escala colossal das criaturas e transformar o confronto em uma experiência mística inesquecível.
Demon’s Souls (2009) – Shunsuke Kida
O compositor Shunsuke Kida arquitetou a identidade de um dos gêneros mais influentes do mercado contemporâneo ao traduzir a ambientação medieval do reino de Boletaria em música. Longe das composições convencionais de fantasia épica, Kida utilizou metais aliados a percussões e violinos dramáticos de forma intencionalmente claustrofóbica para provocar uma resposta de alerta físico constante no corpo do espectador.
The Last of Us (2013) – Gustavo Santaolalla
Vencedor de dois Oscars (por O Segredo de Brokeback Mountain e Babel) , o produtor e multi-instrumentista argentino Gustavo Santaolalla desfez-se de qualquer excesso orquestral para traduzir o pós-apocalipse de forma intimista e crua.
Utilizando a sonoridade orgânica e melancólica do instrumento andino ronroco, combinada a silêncios cirúrgicos e violões levemente desafinados de estúdio, Santaolalla evitou os clichês do suspense tradicional para focar nas fragilidades humanas. O tema homônimo “The Last of Us” opera como uma crônica pessoal sobre o luto, provando que o impacto tátil do som reside na dinâmica de seus respiros.
Bloodborne (2015) – Ryan Amon, Tsukasa Saitoh, Yuka Kitamura, Nobuyoshi Suzuki, Cris Velasco e Michael Wandmacher
Para dar estofo à densidade de pesadelo vitoriano do jogo, Yuka Kitamura e Ryan Amon uniram forças a uma orquestra completa e a um coro gótico gravado na lendária Abbey Road. A composição brilha ao incluir texturas líricas assustadoras em latim. Batalhas pautadas por temas como “The First Hunter” revelam como a dupla conseguiu emular o desespero e o terror gótico sem perder a sofisticação harmônica.
Ghost of Tsushima (2020) – Shigeru Umebayashi
Responsável por clássicos do cinema asiático, o maestro Shigeru Umebayashi (ao lado de Ilan Eshkeri) resgatou a herança instrumental do Japão feudal do século 13. O preenchimento contínuo do espectro sonoro se dá por meio de arranjos minimalistas focados no toque dinâmico do biwa, dos tambores taiko e no sopro poético da flauta ancestral shakuhachi.