Se o boom do feminejo, nos anos 2010, ajudou a ampliar outras narrativas no sertanejo, a década seguinte abriu espaço para um novo movimento, com artistas LGBTQIA+ que passaram a cantar o gênero a partir de suas próprias vivências, misturando o estilo popular a elementos do pop internacional, do eletrônico e do funk. Nesse contexto, surgiu o queernejo — e Gabeu se firma como um de seus principais expoentes, levando sua própria experiência a um universo que sempre lhe foi familiar.
Filho de Solimões, da famosa dupla com Rio Negro, Gabeu foi criado entre os interiores de Minas Gerais e São Paulo — então, o sertanejo sempre esteve presente em casa, nas rodas de viola, por influência do pai. A relação com esse repertório afetivo, no entanto, passou por conflitos. Adolescente, Gabeu tentou se afastar do sertanejo, buscando refúgio no pop — especialmente na Lady Gaga. “Eu era uma criança queer e buscava coisas mais excêntricas, exageradas, então eu encontrava isso no sertanejo”, conta. A reconciliação com a música caipira viria mais tarde, já adulto, quando ele percebeu que poderia ressignificar esse universo a partir de si mesmo, sem abrir mão da própria identidade.
Já a relação com o pai é de puro afeto: nas redes sociais, eles sempre aparecem cantando juntos clássicos das modas caipiras. Em entrevista a André Pintui, Solimões lembra quando o filho se assumiu: “Quando ele veio conversar comigo, falei: ‘Isso aí eu já percebi, ó, [faz tempo], só não assumi perante a sociedade porque eu não sabia se você ia falar comigo’.’ […] Eu não estava preocupado. […] Não tem nada errado nele”, afirmou.
Do amor rural ao rock bravo
Gabeu se lançou na música em 2019, com o single “Amor Rural”. Bem-humorada, a faixa evoca o country e o sertanejo romântico dos anos 1990 com uma letra cheia de trocadilhos. Em 2021, estreou seu primeiro álbum, AGROPOC, com participações de Bemti e Reddy Allor. Com o disco, foi indicado ao Grammy Latino 2022 como Melhor Álbum de Música Sertaneja, feito inédito para o queernejo.
“Quando lancei ‘Amor Rural’, não tinha pretensão de iniciar um movimento. Eu só queria fazer uma música que dialogasse comigo, com quem eu sou”, explica. Ao misturar sertanejo, country e pop, Gabeu passou a tensionar narrativas tradicionais do gênero e a propor outras formas de masculinidade. Para ele, esse deslocamento também dialoga com transformações trazidas pelo feminejo: “Surgem novas perspectivas dentro do sertanejo, novas narrativas. O meu trabalho é impulsionado por isso, mas também pelo desejo de resgatar a música caipira”.
Esse resgate estrutura o mais recente EP, Rock Bravo. Ao longo do projeto, Gabeu revisita clássicos da música sertaneja — como “Minas Gerais”, de Tião Carreiro e Pardinho, e “Telefone Mudo”, de Chitãozinho & Xororó — filtrando-os por uma sonoridade que alterna viola e guitarra. “Algumas escolhas foram estratégicas, outras puramente pelo meu gosto”, diz. O disco também revela o trabalho de pesquisa do artista, que vai da música caipira mais profunda ao rock dos anos 2000, passando pelo pop que moldou sua adolescência.
Abaixo, confira o nosso papo com ele:
Me conta um pouco da sua infância: como foi crescer filho do Solimões, entre o interior de SP e Minas, tendo o sertanejo como trilha sonora?
Crescer com o sertanejo foi muito gostoso. Crescer no interior — apesar de ser de uma cidade grande do interior, Franca — me proporcionou muitas experiências ao longo da infância e da adolescência: ir pra roça, ir pra chácara da minha avó, que fica em Claraval, uma cidadezinha vizinha de Franca, mas já no sul de Minas Gerais.
Eu vivi muito esse percurso entre o interior de São Paulo e o sul de Minas no início da minha vida. Tenho muitas boas memórias desse período, muitas memórias com meus primos e primas, brincadeiras de criança, mas muitas memórias musicais também. Sempre cantar com meu pai, sempre ouvir ele curtindo as músicas sertanejas. Isso sempre foi trilha sonora desse período da minha vida. Foi muito gostoso ter vivido isso e ter tido essas referências no início da minha formação.
Você desponta no queernejo — inclusive, a primeira vez que ouvi falar desse termo foi com seu trabalho e o do Bemti. Como foi pensar esse conceito para sua musicalidade, apresentando outra forma de masculinidade para o estilo, menos tóxica e mais divertida, mesclada com referências pop?
Pensar no queernejo foi uma coisa muito orgânica. Acho importante dizer que o termo veio depois das minhas ideias musicais e artísticas.
Quando lancei meu primeiro single, “Amor Rural”, eu não tinha pretensão de iniciar um movimento. Eu só queria fazer música que dialogasse comigo, com o que eu acreditava, com quem eu sou.
Depois disso, as pessoas começaram a falar na internet sobre “pocnejo”, e eu abracei esse termo. Posteriormente, conheci outros artistas LGBTQIA+ que fazem sertanejo, e a gente se uniu e entendeu que o termo queernejo poderia abranger mais. Eu abraço o termo queernejo, abraço o pocnejo, mas gosto de reiterar que, no final das contas, é música sertaneja, de um jeito ou de outro.
Acho muito gostoso trabalhar essas misturas musicais e estéticas: pegar minhas referências sertanejas, country e pop, misturar um pouco de Gaga — porque eu sou muito little monster — com um pouco de Milionário, que era um grande ídolo do meu pai e acabou se tornando uma referência pra mim também. Brincar com esses extremos, juntar tudo na mesma panela e fazer um grande mexido é, talvez, a coisa mais gostosa do meu trabalho.
Você conecta o queernejo ao feminejo? Acha que o feminejo impulsionou novas formas de existir dentro do sertanejo?
Apesar de existir um movimento de artistas LGBTQIA+, acho que cada um tem particularidades muito grandes. Mas, falando do meu trabalho, eu acho que sim, ele surge de certa forma impulsionado pelo feminejo, no sentido de surgirem novas narrativas e novas perspectivas dentro da música sertaneja.
As mulheres passaram a contar suas histórias de amor, de sofrência, de chifre, de desilusão, apontando os homens como causadores dessas dores. Porque antes era o homem falando sobre como a mulher acaba com ele, mexia com o coração dele e o trai, e agora, a mulher subverte isso e acaba mudando o ponto de vista. Falando dessa perspectiva, acho que isso também impulsionou meu trabalho.
Mas ele também está muito pautado no resgate cultural. Eu sou muito amante da música caipira, da música raiz. Gosto de ouvir, pesquisar, descobrir coisas novas. A música caipira é muito vasta, são muitos anos de história, e sempre tem algo novo pra explorar. Tenho grandes nomes que me inspiram muito, como Cascatinha e Inhana, que talvez sejam minha dupla caipira favorita. Acho que meu trabalho é impulsionado por muitas coisas: pelo feminejo, pelo meu desejo de resgatar a música caipira, pelo meu amor pela cultura e música pop, pelo fato de eu ser um little monster…. acho que é mais uma junção de fatores que fazem com que o meu trabalho exista.
Olhando para o sertanejo dos anos 2000, aquele que você cresceu ouvindo, como avalia as mudanças do estilo até hoje?
Musicalmente, o sertanejo passou por muitas mudanças. Se a gente olha para o período em que eu nasci, no final dos anos 90, e cresci nos anos 2000, havia um sertanejo mais romântico e outro mais dançante — meu pai, inclusive, é um dos grandes nomes do sertanejo dançante dos anos 2000.
Depois disso vieram o sertanejo universitário, a sofrência, e hoje vemos um sertanejo que flerta com o arrocha, com ritmos regionais, com a música eletrônica e o funk. O sertanejo tem muita possibilidade de mistura, e isso é muito rico.
O que ainda sinto falta é de mudança de narrativa e de perspectiva. Queria ver mais criatividade nas composições, mais sagacidade, mais diversidade de histórias. Em termos de poesia, comparado à música caipira, acho que a gente perdeu muito. Mas acho que dá pra resgatar alguma coisa profunda, mantendo coisas atuais, essas misturas musicais que eu entendo que são muito ricas também, como o funk, o eletrônico. O que me pega realmente é essa falta de diversidade narrativa.
Pensando no nome Rock Bravo, ele pode evocar tanto um “rock doido”, do Para e da Gabi Amarantos, mas também o rock como estilo. Daí, fiquei curiosa: você foi um adolescente roqueiro?
Não fui um adolescente roqueiro. Minha adolescência foi muito pop. Eu me refugiei muito nas divas pop, sobretudo na Gaga. Vivi uma adolescência tentando me desvincular ao máximo do sertanejo e da figura do meu pai. Eu reneguei mesmo o sertanejo em algum momento, dizia que era brega.
Encontrei no pop um lugar confortável, onde eu me sentia mais possível. Eu era uma criança queer e buscava coisas mais excêntricas, exageradas, e encontrava isso nas divas pop. O rock veio depois, já adulto. Mesmo quando ouvi Avril Lavigne, não era como a Lady Gaga mexia comigo.
Hoje, tenho ouvido mais rock e pesquisado mais, muito por conta da construção desse EP. Fui atrás da música caipira e também do rock dos anos 2000, do rock brasileiro e de algumas coisas gringas mais atuais. Ouvi muito Fresno, NX Zero, Willow Smith, Yungblud. Me considero uma pessoa bem eclética, e acho isso importante para o tipo de arte que me proponho a fazer.
Neste novo EP, você traz releituras de clássicos do sertanejo. Como foi a escolha dessas músicas?
Algumas escolhas foram mais estratégicas, outras mais pelo meu gosto pessoal. “Chitãozinho e Xororó” era um clássico que eu já conhecia e tinha muita vontade de regravar, mesclando com o rock, com essas mudanças bruscas de viola pra guitarra. Talvez tenha sido a primeira música que pensei para o projeto.
“Minas Gerais”, do Tião Carreiro e Pardinho, foi uma descoberta das minhas pesquisas musicais. Não é uma música que eu ouvia quando criança, mas uma letra simples que dialogou comigo. Já com “Telefone Mudo”, eu senti que precisava de uma música mais conhecida, porque as outras são mais de lado B. Era importante ter uma canção que o público já reconhecesse.
“Rock Bravo” finaliza o projeto como minha música autoral. Mesmo sendo inédita, ela traz muitas referências desse universo sertanejo, country, western, da literatura e do cinema caipira brasileiros. É um apanhado de coisas que vem de bastante pesquisa.
Se tivesse de escolher apenas um modão para ouvir pelo resto da vida, qual seria?
Ai, meu Deus. Eu vou sofrer para fazer essa escolha! [risos] Bom, pensando no meu mood atual, neste exato momento, eu escolheria “Casa de Caboclo”, na versão do Nono e Naná. Nem sei se é a versão original, porque é uma música tão antiga que muita gente já regravou, mas essa versão específica eu escolheria para ouvir pelo resto da vida.
