Depois de sete anos, Jade Baraldo lança Não Há Nada Mais Honesto Do Que Um Sonho (2026). Com 11 faixas e produção do duo SANTIN e de Saudade, a artista adianta, em entrevista para a Noize, que a versão deluxe vem logo mais, ainda este ano.
O retorno representa, também, um reencontro com si mesma. Depois de Mais Do Que Os Olhos Podem Ver (2019), a catarinense compôs mais de 60 faixas para o projeto, narrando o início ao desgaste de um relacionamento abusivo, inspirado em suas próprias vivências.
Sonoramente, o álbum equilibra a melancolia com referências sonoras dançantes, tendo o pop como fio condutor, mas também bebendo do samba, jazz, pagodão, e neo-soul. Filha de músicos, Jade juntou tudo que mais gosta na música no álbum. Confira entrevista abaixo:
Sete anos separam Não Há Nada Mais Honesto Do Que Um Sonho e Mais Do Que Os Olhos Podem Ver. O que mudou em você, tanto como artista quanto como pessoa?
Nossa, muita coisa, não sou mais a mesma pessoa de antes. É muito louco, né? Porque eu cheguei e aterrissei no mercado com 17 anos, não sabia de nada, nada, nada. E, ah, mudei muito, né? Dos 17 para os 27 são 10 anos, então eu acho que lá no início eu tinha muito uma cabeça muito diferente e uma maturidade muito diferente também. Não tem como.
E assim, mesmo que a minha mãe me avisasse, sempre me relacionei com homens mais velhos até então. Mas não tinha como, eu tinha que viver as coisas, sabe? Sou uma pessoa completamente diferente daquela Jade que existia antes. Ela morreu para essa Jade nascer. E o álbum fala muito sobre isso.
No meio dele tem um interlúdio que fala muito sobre isso, mostrando que essa fase acabou. Ou você vai morrer mesmo, ou você transforma essa morte em uma morte significativa, simbólica, para poder viver de outro jeito. Consegui, finalmente, colocar em um trabalho meu vários gêneros que seguem comigo desde minha infância: blues, jazz, MPB, coisas que eu cresci escutando pela influência dos meus pais.
E isso veio com a maturidade musical, com a maturidade emocional, porque eu tinha muito medo disso. Quando eu saí do The Voice [a cantora participou 5ª temporada em 2016] todo mundo falava para eu me desvencilhar dessa imagem de MPB, porque senão ia ser muito difícil caminhar para o pop. Cresci ouvindo isso, mas, na verdade, eu sou isso. Hoje tenho a maturidade de trazer essas referências de uma forma pop, trazer isso dentro do meu universo com muito respeito e viver isso.
Com certeza. Que legal ter esse panorama. Eu acho que quanto mais a gente cresce, mais entende que o que a gente tava fazendo ali às vezes tava muito certo, tinha muito a ver com a nossa essência. E a gente tenta se afastar, mas volta, né?
É! Loucura, loucura.
Assim, não vou dizer que me arrependo, não me arrependo não. Acho que consegui percorrer caminhos diferentes, mas é isso. Eu cresci muito com isso, tipo: ‘Nossa, eu não posso ser igual aos meus pais, não posso fazer repertório de bar, não posso…’, sabe? Quando, na verdade, isso é tudo que eu sou.
A pausa foi uma escolha sua, algo que você sentiu que precisava fazer, ou apenas aconteceu naturalmente?
Na verdade, eu não consegui lançar um álbum tanto por questões pessoas mas também por restrições contratuais. Sempre quis lançar o álbum, mas o mercado é muito difícil, então não consegui tirar o projeto do papel antes.
Mas era meu desejo desde o início. Estou lançando agora porque eu posso, tenho menos da metade dos recursos que eu tinha, voltei a ser independente, mas, ainda assim, estou lançando um álbum. Estou colocando ele na rua e é isso que importa!
Quais são as expectativas para este retorno?
Acho que o pessoal vai gostar muito, viu? Só de lançar o álbum estou me sentindo muito mais leve, porque eu consegui pegar um recorte muito específico da minha vida e botar muita verdade nas letras. É quase autobiográfico. Não sei se eu deveria falar, mas vem aí um Deluxe do álbum! Mesmo assim, não parei de compor. Já estou fazendo outras músicas, pensando nos próximos projetos.
Você escreveu mais de 60 músicas, mas só 11 entraram no álbum. Como você escolheu o repertório? São canções super autobiográficas, então qual critério guiou sua escolha final?
Quando eu comecei a pensar no repertório, eu estava num relacionamento muito tóxico. E aí comecei a sentir necessidade de compor músicas. Pensei assim: ‘Cara, vai ser o momento certo para lançar o álbum. Eu vou lançar com o que eu tenho, com o sentimento que eu tenho, com o emocional que eu tenho mesmo e dane-se’. Eu pensei isso no início.
E aí fui fazendo essas músicas e elas eram muito pesadas. Eu costumo usar essa analogia de abrir a torneira e sair a água suja, sabe? A água pesada, para depois limpar e sair a cristalina. Acho que as primeiras músicas foram muito isso. Elas estavam retratando um momento muito difícil da minha vida.
E aí, graças a Deus, eu conheci o Santin, que são os produtores e compositores junto comigo desse álbum. Eles viraram meus melhores amigos, minha família mesmo. A gente foi desenvolvendo uma intimidade para eles conseguirem extrair tudo o que eu estava sentindo e também me ajudar.
Eles chegaram para mim e falaram: ‘Cara, Jade, amiga, isso que você está fazendo não é exatamente o que você gosta’. Tipo: ‘Você não gosta de blues? Você não gosta de jazz?’. Não necessariamente eu estava fazendo o que eu gostava de escutar, né? Nem passando o sentimento da forma que eu queria.
E eles começaram a me ajudar nesse processo de lapidar e deixar tudo o mais próximo possível do que eu queria. O álbum ficou coeso, redondinho. A gente colocou só as músicas que achava que encaixavam naquele universo, porque ele tem um universo próprio.
Essas do deluxe eu não ouvi, então queria muito que você me falasse um pouquinho sobre elas. Como elas são? O que estão contando?
Serão quatro faixas novas. E tinha muito mais música, viu? [risos] Mas a gente ainda precisava passar uma peneira nessas músicas. No início, as músicas estavam muito cruas. Uma coisa meio… não era rock industrial, era um eletrônico industrial. Eu sou muito fã de Nine Inch Nails. O Trent Reznor, para mim, é uma pessoa que consegue ser tudo ao mesmo tempo. Ele é uma grande referência.
E eu estava fazendo algo muito próximo disso, de ‘Closer’, que era um negócio bem sensual, mas denso, com uma letra muito exposta, muito na cara. Não posso dizer que essas músicas da deluxe vão ser exatamente assim, porque a gente lapidou bastante a produção e até a escolha das músicas. Mas foi assim que elas nasceram. Acho que é o máximo que vou conseguir explicar com palavras, porque é uma coisa muito sensorial. Mas elas são muito sexys, muito tristes. Acho que essas são as duas principais características que eu consigo dar.
Senti uma vibe meio Letrux em SadSexySillySongs, concorda?
Sim! Tem um pouco essa vibe mesmo. A Letrux, inclusive, é uma grande poeta para mim. O jeito que ela escreve é muito foda! Sonoramente, não tem nada a ver, mas acho que você pegou a vibe no sentido poético, do eu lírico mesmo.
Você revisitou momentos difíceis para você na composição, o fim de um relacionamento tóxico. Foi difícil para você colocar tudo no papel ou quando fez isso sentiu um alívio, como se fosse um desabafo?
Eu senti um alívio, juro. Quando eu terminava cada música, era uma catarse. Eu chorava. Às vezes não chorava na frente das pessoas, mas ia para casa e chorava no banheiro, sabe? Foi um trabalho quase terapêutico mesmo. E, na época, eu não estava podendo fazer terapia. O espaço em que eu estava não me deixava fazer isso, porque eu morava na casa dele, estava casada, e não me sentia à vontade.
A música veio como uma salvação, como uma forma de colocar alguma coisa para fora, porque eu estava realmente precisando.
Foi sofrido, mas, depois que eu fiz, foi muito bom.. E eu sei que também tem a ver com tirar esse karma de mim ao lançar essas músicas, não só escrevê-las. O ato de lançar faz com que elas deixem de ser só minhas. Agora vão ser de várias pessoas também. As pessoas vão se identificar, e isso pode ajudá-las.
Com certeza, acho que muita gente vai se identificar! Falando um pouco do som, o pop guia o projeto, mas ele passa por um leque sonoro. Quais referências musicais foram chave do projeto? Os produtores te ajudaram no processo?
Eles são os pais gays desse álbum. A gente já está quase virando um triângulo, eu e eles [risos]. É muito louco como eles tomaram um papel central na minha vida do nada — e eu na deles também, vice-versa. Muita terapia. Mas eles realmente fizeram esse álbum comigo. São tão donos dele quanto eu. Posso dizer isso com absoluta humildade: sem eles, isso não estaria acontecendo agora. Não estaria mesmo.
Cara, eu trabalhei majoritariamente com mulheres e gays, e isso foi uma das coisas mais maravilhosas da minha vida. Juro, nunca mais quero trabalhar com hétero. [risos]. Os héteros que me perdoem, mas é verdade. Está sendo tão bom. Ter uma diretora mulher também [Juliana Colinas] fez toda a diferença.
Geralmente peço para os artistas resumirem o álbum em 3 palavras, mas, tendo em mente todo esse universo, gostaria de você o definisse em uma sensação.
“Alta frequência.” São duas palavras, mas acho que essa é a definição. Colocar esse álbum no mundo — e viver todo o processo dele — me deixou numa frequência muito boa. Às vezes, só de escutar uma música já entro em outro astral, dependendo do que estou fazendo. Me sinto forte, me sinto bem.
Então, o disco é um recorte dessa boa frequência que eu transformei em áudio. Acho que, quando a pessoa escuta, ela pega um pouco disso para si também. Mesmo quando eu estou na merda, às vezes escuto uma música minha pensando no significado dela e consigo ficar bem. E por isso o papel do Santin foi tão importante, porque o álbum estaria numa frequência muito mais baixa se tivesse sido feito no início de tudo.
Partindo para o trabalho audiovisual, ele vai ser dividido em três personas: a femme fatale, a showgirl e uma versão mais vulnerável. O álbum é bem pessoal, mas esses são arquétipos que a gente conhece bem. Você considera essas personas personagens mesmo ou são diferentes versões de você? Como foi construir essa narrativa?
Eu acho que, independentemente de eu criar uma personagem completamente fictícia, é impossível dizer que ela não seja eu. Tudo ali foi inspirado em vivências e sentimentos que eu queria passar para essas personagens. Elas representam os três estágios do álbum: início, meio e fim.
No começo, eu estou muito mais femme fatale, que é uma imagem que a galera já conhece. É a “Jade de perigo”, fria, distante. A gente se inspirou muito numa espiã da KGB, uma mulher que vive nesse universo masculino e luta com as armas que tem contra os homens — seduzindo, manipulando, mas também num lugar muito frio, muito ligado ao que chamam de empoderamento.
Aí a história evolui e, no meio do álbum, ela se apaixona por um desses caras da máfia, um homem muito rico. E ela começa a se perder dentro da vida dele, nos vícios dele, nesse universo. Então essa espiã vira uma showgirl. Uma mulher de cabaré, basicamente, que dança para macho ruim, fuma charuto…
Claro que eu não sou uma dançarina de cabaré, mas a gente foi criando personagens que representam arquétipos muito presentes em várias mulheres. Isso vai crescendo até chegar em “Doente”, que para mim é a síntese do álbum. O disco não existiria sem essa música. Ela resume tudo.
E aí essa showgirl está no auge da decadência dela, até que decide sair desse lugar. Isso aparece muito nos visuais. Durante os vídeos, existe sempre uma sombra, uma mão aparecendo ao fundo, uma silhueta observando. A gente se inspirou muito nos filmes de suspense da A24. Então criamos esse clima meio perturbador. Essa sombra acompanha a personagem o tempo inteiro, até o momento em que ela deixa o cabaré para trás. A sombra fica lá. Como se aquele trauma pertencesse àquele espaço, não mais a ela.

E aí entramos na terceira personagem, que chamamos de “girly”. É como se ela finalmente voltasse para si mesma, mas agora sem a frieza, sem o trauma, sem aquele fechamento emocional. Ela está mais madura, mais aberta para a vida e entende que a vulnerabilidade também é importante.
Chorar no banheiro às vezes é importante. Falar palavrão também. Botar as coisas para fora. Essa última personagem é uma evolução da primeira. Muito mais consciente, mais difícil de enganar, mas também mais aberta ao amor e às coisas boas da vida.
Que legal! Uma vibe meio Suspiria, dançarinas e suspense
Sim! Exatamente isso!
É uma narrativa super cinematográfica, a gente consegue visualizar claramente com você contando. E, o mais legal, é a mensagem final do álbum: se encontrar depois de todo sofrimento. Com certeza, muita gente que está nessa situação e não enxerga vai ter um estalo.
Com certeza. As mensagens que eu recebo são muito lindas, sabe? E são mensagens muito pesadas também. Já recebi mensagem de menina de 11 anos falando: “Nossa, eu consegui falar para minha mãe que meu padrasto me abusa”. É um negócio muito pesado. Às vezes eu nem sei o que fazer com a informação, assim. Eu respondo, falo: “Nossa, que bom”, mas fico meio em choque também, sabe? São umas coisas realmente muito pesadas.
E eu tenho certeza de que, com esse álbum, vai ter muita gente que vai se identificar. Acho que toda mulher passa meio que por isso, de certa forma. A violência realmente te segue, mas você precisa entender que a movimentação para sair disso também depende de você. Porque ninguém mais vai conseguir te ajudar completamente além de você mesma. Você pode ter suporte e tal, mas só você consegue sair do buraco.


