A Rádio Eldorado anunciou recentemente que encerrará suas atividades nos próximos dias, após 68 anos no ar. Em protesto contra a decisão, centenas de pessoas se encontraram na Avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo, dia 3.
Conhecida por prezar conteúdo de qualidade e excelência em curadoria musical, a emissora mescla programação musical com jornalismo, tendo em seu histórico programas icônicos do rádio brasileiro, como Um Piano Ao Cair da Tarde, Sala dos Professores, Jam Session, Vozes do Brasil, Som a Pino, Minha Canção, A Hora da Vitrola e muitos outros, vários premiados.
No time de comunicadores, passaram pela emissora Jô Soares, Fernanda Young, Rita Lobo, Patricia Palumbo, Daniel Daibem, entre outros. Atualmente, alguns apresentadores são Roberta Martinelli, Sarah Oliveira, Mauricio Pereira, Baba Vacaro, Paula Lima, Haisem Abaki, André Góis, Emanuel Bomfim, Leandro Cacossi e eu, Felipe Tellis.
Segundo o Estadão, a decisão ocorreu por conta do crescimento acelerado das plataformas de streaming musical desde a pandemia, além de um reposicionamento estratégico de sua marca e da transformação do papel das rádios FM tradicionais. Mas há dados que mostram outro cenário: segundo pesquisa Kantar Ibope, o rádio se consolida como o principal meio de áudio no Brasil, alcançando 79% da população, mesmo com o crescimento dos podcasts nos últimos anos.
O mesmo relatório mostra que 91% dos brasileiros consome conteúdo de áudio em sua rotina, em formatos variados: rádio, podcasts ou serviços de streaming. Quase 30% acessam o YouTube para acompanhar esse material também em vídeo. O futuro, então, é uma fusão de áudio e vídeo.
Em 2015, ou seja, há mais de dez anos, meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de jornalismo foi sobre como o programa Morning Show, da Jovem Pan, estava mudando a direção de como se fazer rádio no Brasil. Hoje, a emissora transformou-se num canal de TV.
Recentemente, a Rede Transamérica virou TMC e tem caminhado na mesma direção. Outras emissoras, como Rádio Alpha, 89 A Rádio Rock e Rádio Disney Brasil, transmitem em vídeo a partir de seus estúdios, veiculando clipes musicais e outros conteúdos, e também têm a possibilidade de capitalizar sua programação de outras formas.
Atualmente, o número de ouvintes de rádio em São Paulo chega a quase dois milhões de pessoas diariamente, somando a audiência das 37 emissoras presentes na capital. A Alpha, líder de audiência, tem em média 150 mil fãs sintonizados por minuto.
O futuro do rádio

O rádio não deixou de ser ouvido. Empresários de grandes grupos têm investido cada vez mais no setor, no Brasil adquirindo novas frequências para seu patrimônio, e novas marcas têm surgido no mercado, como a recém-inaugurada Forbes Radio, que se autointitula como rádio de luxo, inserindo-se num mercado voltado a um público com grande poder de compra, ao qual a Rádio Eldorado já pertence: mais de 90% do público da Eldorado tem formação superior, sendo 60% das classes A/B, se tornando potencial alvo de grandes marcas como clientes — o que poderia facilitar a comercialização de espaços publicitários.
No rádio, as emissoras são divididas em segmentos como popular, jovem, news, esporte e adulto, em que estão a Alpha e a Eldorado. A diferença entre elas, porém, é a abordagem. Na Eldorado, o ouvinte vai escutar do pop ao jazz, da música brasileira às cantadas em línguas pouco conhecidas, mostrando diversidade e riqueza cultural, fator que a diferencia no mercado.
Pesquisa qualitativa interna realizada em 2025, aliás, mostrou proximidade do ouvinte da Eldorado justamente com marcas como Antena 1, Novabrasil, Alpha, CBN, Bandnews e KEXP (EUA), quando se fala em rádio, e Me Conte Uma Fofoca, Não Inviabilize, Rádio Novelo, Café da Manhã e O Assunto, quando se fala em podcasts.
Nas redes sociais, João Lara Mesquita, ex-diretor da Rádio e Gravadora Eldorado, fundadas por sua família, comentou a decisão. “Transformaram meus 20 anos como diretor em uma longa tarefa de desatar nós”, escreveu. Ele também afirmou que a emissora era mantida sem área comercial própria.
A notícia do encerramento da Eldorado, porém, provocou reações, tanto dos ouvintes quanto da classe artística, que sempre contou com o espaço para divulgação. Entre as ações promovidas por eles estão a criação de alguns abaixo-assinados reivindicando a continuidade da emissora, chamada de patrimônio cultural paulistano, a manifestação deste domingo, dia 3, na Avenida Paulista; e um evento gratuito com a presença de vários artistas no Largo da Misericórdia, em frente à Casa de Francisca, no próximo domingo, dia 10, a partir das 18h. Saiba mais aqui.
*Felipe Tellis é colunista da Noize e assina mensalmente a seção Sintonize.