Você chega a um hotel. Lá, encontra YMA, ou melhor, a Passageira S., pseudônimo que a artista adota no universo de Sentimental Palace (2025), seu segundo disco. Mas o hotel não fica em qualquer lugar. Como um tetris, ele se encaixa dentro de um castelo, que, por sua vez, tem endereço no inconsciente dela, sua fantasia particular.
“No meio das gravações, já vinham pinceladas dessa história na minha cabeça. De alguma forma, criei isso para ressignificar momentos difíceis que passei em 2023”, compartilha com a Noize. Naquele ano, YMA se viu muito perto da morte. Depois da recuperação, a fantasia de Sentimental Palace foi a saída que encontrou para se encantar com a vida de novo.
A “Passageira S.” e “Rita” são personagens que ganham faixas só para elas, mas o hotel também esconde outras caras às quais os ouvintes devem ser apresentados num livro que YMA prepara com o escritor Moisés Baião, ainda sem data de publicação definida. O concierge Borges, que leva o nome do escritor argentino, é uma dessas figuras, assim como o cachorro Stracciatella, o mascote do Sentimental Palace.
O universo do Sentimental Palace de YMA
Se o elenco fictício foi importante para YMA, o real também teve seu papel. Após um hiato de seis anos – durante o qual lançou alguns singles e um EP em parceria com Jadsa –, ela sabia que queria navegar por outras águas. E os músicos que participaram do projeto se mostraram fundamentais nessa empreitada.
“O [Marcelo] Cabral, o [Fernando] Catatau, o Victor Wutzki, a Yohana [Granatta], e os próprios produtores, o Fernando [Rischbieter] e o Lauiz… Todos trouxeram muita inventividade ao longo do processo.” Entre outros nomes, a ficha técnica estrela também os de Francisca Barreto, João Barisbe, Gabriel Milliet, Manu Julian, Vicente Tassara, Theo Ceccato e Helena Cruz – os quatro últimos, membros da banda Pelados, assim como Lauiz.
Já nos vocais, convidados especiais aparecem em três momentos: Jup do Bairro em “Lagosta, Ostra”, inicialmente uma jam session de quase dez minutos que no álbum ficou com pouco mais de dois; Lucas Silveira, vocalista da banda Fresno, que além de topar o feat, ajudou a artista a terminar a letra de “Te Quero Fora”; e Sophia Chablau, cuja voz se entrelaça à de YMA em “Rita”, composição mais antiga do disco.
“A letra me chamou atenção, mas acima dela, gostei muito da melodia. Achei que ela tinha um desenho muito único, super bossanovístico, mas sem ser uma cópia dessa estética. Muito original. Me pegou fundo mesmo”, Sophia comenta.
A isso, adiciona-se ainda um toque cinematográfico. Não é de hoje que os filmes inspiram YMA, grande fã do mundo onírico de David Lynch.
No entanto, aqui ela recorre às referências da sétima arte de formas diversas: da sonoplastia em algumas faixas para ajudar na ambientação do hotel – como os passos, o vidro quebrado e o barulho de porta na faixa de abertura – aos filmes que se escondem entre as composições: “2001” é escrita a partir de nomes de longas-metragens, enquanto “dentro de mim” faz menção aos “cavalos, espadas e paredes cor de romã”, num aceno ao cineasta Sergei Parajanov.
“Não fiz um segundo Par de Olhos (2019). Acho que eu tinha um desejo muito grande de expandir e de ir para outros lugares”, reflete sobre o que colocou no mundo. É assim que o indie com ares oitentistas que a tornou conhecida lá atrás agora abre portas diferentes nesse misterioso hotel, indo de texturas psicodélicas à aparição inesperada do drum ‘n’ bass; dos elementos da Bossa Nova, citados por Chablau, ao pop rock. Cordas, sintetizadores e sopros, em suas mais diversas combinações, moram sob o mesmo teto.
Analógica
“Lembro que eu comprava revistas de música que vinham com pôster”, YMA rememora. Assim, faz sentido que um pôster componha o kit de Sentimental Palace, de YMA, em vinil no NRC+.
Garanta Sentimental Palace em vinil marrom translúcido, com pôster e almanaque no NRC+
“A relação que a gente tinha com essas coisas e com a obra dos artistas nos impressos, na mídia física, envolvia um afeto, uma intimidade, um mergulho. É algo que eu tento trazer no meu trabalho hoje. Eu vivi os dois lados da vida, com e sem internet, e eu ainda prefiro sentir mais fora do que no mundo virtual.”
Outro resgate analógico que chega junto com o vinil é um almanaque, que a artista preparou ao lado de Moisés Baião, no texto, e Maria Júlia Rêgo, no design. “Foi uma das coisas mais legais que eu já fiz”, fala sobre o projeto, cuja ideia surgiu a partir da visita a um sebo.
“Me deparei com esses almanaques dos anos 50… Fiquei muito impressionada e apaixonada pela estética e quantidade de informações sobre todo tipo de assunto que você imaginar, de ciências à astrologia, música, contos, propagandas… Nossa, tanta coisa.”
Além do pôster e do almanaque,a edição de Sentimental Palace pelo NRC+ conta com uma faixa bônus: “No Sé Si Creo en Los Sueños”. “Eu sou estudante de espanhol no Duolingo”, brinca. “Não costumo me elogiar, mas acho essa letra muito bonita.”
Por enquanto, a cantora não prevê o lançamento da canção nos streamings, ela quer reservar a experiência para os toca-discos. Sobre a faixa, conta que surgiu por acaso. “O Fernando [Rischbieter] estava escutando ‘Anjo Cometa’ no slow, e me disse: ‘cara, olha que massa esse trecho!’”. Quando ouviu essa versão, dez vezes mais lenta, YMA decidiu criar algo em cima da base. Assim nasceu “No Sé Si Creo en Los Sueños”.
O fato do Sentimental Palace de YMA se expandir mesmo após seu lançamento mostra como a artista entende a mutabilidade do seu próprio trabalho. “Ultimamente, tenho pensado em discos como filhos. Cada um encontra o seu próprio caminho depois que sai para o mundo, tem uma história diferente e vem com uma personalidade. Além disso, o contato com o mundo faz a obra ser o que é.”
Na mitologia criada para o disco, esse contato não acontece em vão. “O Sentimental Palace sempre vai chegar nas pessoas no momento em que elas estiverem precisando. Então, se você quiser ir para o Sentimental Palace, você não vai conseguir”, diz YMA, “porque o Sentimental Palace vai chegar até você no momento que você precisar.”