A saxofonista britânica Nubya Garcia consolidou seu nome como uma das vozes mais importantes da nova geração do saxofone, ao lado de contemporâneas como Melissa Aldana e Lakecia Benjamin, por exemplo. Figura central da renovação do jazz britânico nas últimas duas décadas, Nubya desenvolveu uma linguagem que combina jazz, dub, reggae, música afro-cubana, calipso e diferentes sonoridades da diáspora africana. É interessante observar como seu trabalho dialoga tanto com a tradição quanto com o experimentalismo contemporâneo.
A saxofonista que chamou a atenção do público com seu primeiro registro solo (Nubya’s 5ive, lançado em 2017 via Jazz re:freshed), ganhou projeção internacional com Source (2020), álbum que sintetizou influências do jazz, reggae, dub e música afro-latina. Em 2024, a artista retornou com Odyssey, seu segundo lançamento pela Concord Jazz, trabalho ambicioso que amplia ainda mais seu universo sonoro através de arranjos para cordas, novas colaborações e uma abordagem mais cinematográfica da composição.
A artista retorna ao Brasil para uma série de apresentações que começam pelo projeto Queremos!, com duas sessões no dia 2 de junho, no Clube Manouche, no Rio de Janeiro. No dia 3 de junho, ela sobe ao palco da Casa Natura Musical, em São Paulo. A passagem pelo país também inclui o Rio das Ostras Jazz & Blues Festival, realizado entre os dias 4 e 7 de junho. Nubya se apresenta no dia 5 de junho, às 20h, no palco Cidade do Jazz, e retorna no dia 6 de junho, às 17h, no palco Boca da Barra.
A edição deste ano do festival reúne nomes internacionais de destaque como Linda May Han Oh, Mark Lettieri e Stanley Jordan. Entre os artistas brasileiros confirmados estão Guinga, Bixiga 70, o gaitista Gabriel Grossi e o guitarrista Igor Prado, entre diversos outros representantes da música instrumental nacional.
Aproveitando a passagem da saxofonista pelo Brasil, a Revista Noize conversou com Nubya Garcia sobre a efervescente cena musical de Londres, a importância de coletivos como Jazz Refreshed, seus projetos paralelos Nérija e Maisha, as influências afro-caribenhas presentes em sua música e o processo criativo por trás de Odyssey.
Para começar, eu queria falar sobre sua origem familiar e como isso influenciou sua abordagem musical. Você nasceu em 1991, em Camden Town, Londres, a caçula de quatro irmãos, filha de uma mãe guianense e de um pai britânico-trinitário. Que tipo de música você ouvia em casa?
Muitos tipos diferentes de música, claro. Música da escola, o que tocava em casa, o que eu ouvia com os amigos, e também a música que eu tocava nas bandas da escola, como jazz, reggae, dub, funk, disco, salsa cubana, música clássica…
Pergunto isso porque, desde suas primeiras gravações pela Jazz Refreshed, eu conseguia ouvir fortes influências afro-cubanas, além de dub e outros elementos caribenhos. Você poderia falar sobre como esses ambientes sonoros iniciais moldaram seu som?
Sim, com certeza. Fui fortemente influenciada por soca, calipso, reggae, dub e também música afro-cubana. Acho que quando você começa a tocar música e especialmente a compor, você escreve a partir de um lugar que conhece. E quando aquilo que você conhece e reconhece atravessa muitos gêneros, você tende a explorar e criar uma música que mistura tudo isso.
Você também poderia falar sobre o coletivo Nérija e seu outro grupo, o Maisha, mais voltado para um jazz espiritual?
Fazer parte desses dois projetos foi algo muito bonito e realmente aprimorou minha capacidade de composição coletiva. Eram bandas muito diferentes, e eu vivi momentos muito especiais tocando e participando de ambas. Musicalmente, foi muito emocionante vê-las crescer e se desenvolver, especialmente em uma época em que muitas bandas surgiam.
Todos nós dizíamos “sim” para fazer música em diferentes espaços, com diferentes pessoas, explorando a criação de diversas maneiras e caminhos musicais.
Vi você tocar no Brasil em 2017, no Jazz nos Fundos e no Centro Cultural Cecília, em São Paulo. Você poderia falar sobre a importância da Jazz Refreshed durante aqueles anos iniciais e formativos da sua carreira?
A Jazz Refreshed existe há mais de 20 anos. Começou como uma apresentação semanal e desde então expandiu para realizar shows no exterior, festivais, criar um selo musical etc. Eles incentivaram muitos músicos ao longo dos anos a fazer música, compartilhar seu trabalho e se apresentar em Londres, e depois levar essa música para diversos lugares ao redor do mundo.
É fundamental em qualquer cidade, especialmente em uma como Londres, que existam coletivos capazes de apoiar músicos, seja através da comunidade, lançando música, oferecendo um espaço para tocar ou apresentando essa música para públicos cada vez maiores.
Em 2016, você se formou com honras no Trinity Laban Conservatoire of Music and Dance. Entre seus colegas estavam Joe Armon-Jones e Moses Boyd. Como você enxerga essa geração do jazz britânico?
O jazz britânico tem uma história incrível e pouco comentada. Tive a sorte de admirar músicos de todas as gerações e observar o trabalho e o legado que construíram e continuam construindo. É somente por causa disso que eu posso continuar construindo sobre essa base.
Cada geração acrescenta algo novo. Eu fico feliz por ter contribuído para diversificar quem frequenta os shows e por ajudar a trazer os jovens de volta para essa música. Me traz muita alegria olhar para o público e ver pessoas de todas as origens e idades. Fazer parte dessa comunidade é muito bonito.
Como o reggae britânico e a cultura dos sound systems também influenciaram sua música?
Cresci cercada por isso desde muito nova. Seja em festas, no Carnaval de Notting Hill ou em shows, isso faz parte de mim tanto quanto o jazz.
É uma energia verdadeiramente incrível, muito curativa através da dança, e uma base inegável da música dançante do Reino Unido. A cena musical britânica soaria muito diferente sem essa influência.
No álbum Source, você incorporou elementos de calipso, cúmbia, reggae e outros sons da diáspora africana. Como esses elementos ajudaram a construir esse verdadeiro caldeirão de influências?
É uma pergunta difícil de responder e colocar em palavras. Quando você cresce cercada por músicas de diferentes gêneros e também busca descobrir mais delas, você para de separá-las em categorias. Então, quando chega o momento de criar, tudo isso não fica dividido entre diferentes grooves, estilos ou energias.
Existem melodias, harmonias e linguagens rítmicas diferentes no reggae, no dub, em diferentes eras do jazz, no calipso e assim por diante. Mas, no fim das contas, tudo faz parte da mesma linguagem.
Você poderia falar especificamente sobre jazz latino e salsa? Ao ouvir sua música, é impossível não fazer conexões com essas tradições.
Sim, eu adoro salsa. Acho que nos últimos anos tenho sido cada vez mais influenciada por ela.
Sempre gostei de dançar e ouvir salsa, mas agora ouvir ativamente e estudá-la parece diferente. Isso me aproxima cada vez mais da estrutura interna desses sons, e estou adorando isso.
Recentemente encontrei um disco incrível da Fania em uma loja em Paris e tive que sair de lá com ele.
Acho que os arranjos da salsa são verdadeiramente incríveis. Os detalhes, o esquema de pergunta e resposta, tudo. Sou uma grande fã de qualquer música que faça você sentir imediatamente a necessidade de se levantar, se mover e dançar — especialmente a salsa.
Para encerrar, vamos falar sobre Odyssey. Você expandiu seu trio principal, trabalhou com músicos como Esperanza Spalding e Georgia Anne Muldrow e explorou novas sonoridades. Você considera este seu álbum mais diverso até hoje?
Sim, definitivamente é meu álbum mais diverso até agora.
Eu também diria que Odyssey foi um verdadeiro desafio para mim. Eu realmente queria aprender a escrever para cordas. Inicialmente seriam apenas uma ou duas partes, mas os arranjos acabaram se expandindo para doze instrumentos de cordas. Foi uma experiência incrível de aprendizado e estudo pessoal.
Para mim, esse disco foi concebido para soar como a trilha sonora de um filme cinematográfico, mas ainda assim soar como eu.
Musicalmente, é uma jornada ampla, envolvente e exploratória.
Eu realmente me incentivei a não fazer um Source 2.0. Queria que esse trabalho tivesse minha voz musical, mas que também me colocasse em um papel mais profundo e sofisticado como compositora, regente, arranjadora e orquestradora, além de saxofonista.
Também queria colaborar com alguns dos músicos incríveis que sempre admirei, como Esperanza Spalding, Georgia Anne Muldrow e Richie Seivwright.
22º Rio das Ostras Jazz & Blues Festival
De 4 a 7 de junho de 2026 – Rio das Ostras/RJ
Palcos: Palco Brasil (Praça São Pedro – Centro) / Lagoa de Iriry / Boca da Barra / Palco Arthur Maia – Costazul / Cidade do Jazz – Costazul
Entrada gratuita
