Quando MC Hariel lançou Funk Superação (2024), talvez nem ele imaginasse a proporção que o projeto tomaria. Um ano depois, o disco não só segue reverberando, como se consolidou como divisor de águas na trajetória do paulistano. O trabalho deixa evidente que o apelido Haridade não surgiu à toa: ele foge do padrão, tanto ao unir diferentes gerações e gêneros, como rap e MPB – quanto no papel de empresário, ao apostar em novos talentos da periferia.
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Em conversa exclusiva com a Noize, Hariel contou detalhes dos bastidores do álbum, mostrando que esteve envolvido em todas as etapas: “Desde o desenvolvimento da primeira ideia até o último traço ali do palco, na escolha dos feats, do cenário… Do parafuso até a cor da lâmpada. Pude participar do processo junto com os diretores.” O Funk Superação, que segundo ele “ganhou um lugar especial no coração” do MC, também carrega um simbolismo relevante: “Tem esse nome forte pra dizer que quando a gente se refere a conquistas, vitórias e alegrias, tudo é inteiramente ligado à superação pessoal e histórica de cada um”.
Uma das apostas mais ousadas do trabalho foi mesclar o beat do funk com arranjos de orquestra. Segundo o artista, a decisão veio para “trazer mais harmonia, mais instrumentação e um clima épico pra um projeto que também foi, na minha carreira, épico, de certa forma.” O parceiro fundamental nessa missão foi o DJ Thi Marquez, diretor e produtor musical do projeto que também assina os arranjos: “Ele tem uma escola gigantesca nesse quesito. Já tocou em banda, sabe diversos instrumentos. Ele é hoje meu DJ, toca comigo na estrada e foi o meu grande parceiro aí pra criação dos arranjos.”
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A gravação, realizada em julho do ano passado, trouxe ao palco, junto com os cantores convidados, uma banda completa, com orquestra de cordas e coral. Hariel relembra que “a ansiedade era gigante. Junto dela vinha a dúvida: será que vai ser aceito? Era o que mais me perguntavam. E eu não sabia responder.” O tempo mostrou que a aposta deu certo: Funk Superação se consolidou como um projeto atemporal: “Acredito que esse disco tem muita lenha pra queimar por anos. É uma árvore que vai dar fruto pelo resto da vida”.
Os convites para as participações de grandes nomes como Péricles, IZA, Gilberto Gil, BK’ e Ice Blue rolaram de forma natural: “Por onde a gente passava e conseguia criar uma conexão, a gente ia trazendo pra perto pessoas que poderiam estar com a gente nessa trajetória.” Disco é memória afetiva Hariel também valoriza a edição em vinil como uma forma de eternizar a obra, algo raro numa época em que as músicas são tão passageiras.
“É uma para transformar em objeto, de poder tocar e de poder se sentir um pouco mais pertencente daquela história.” Para ele, a intenção é que o vinil se torne um “objeto afetivo”, uma herança que possa ser passada de geração para geração, como os discos que seu pai, músico, deixou para ele: “Tenho os LPs guardados até hoje, e mostro com carinho pro meu filho: ‘isso aqui é do seu vô’. Ele tem três anos, não entende, mas é memória afetiva, é história.”
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Já a admiração por Gilberto Gil também vem de longe, assim como o gosto pelos discos, mas evoluiu: “Antes eu era só um admirador, né? Hoje continuo sendo, mas virei amigo. Posso pedir opinião, conselho… sou abençoado por poder falar que vivo essa experiência”. “A Dança”, faixa que traz a participação de Gil, foi inspirada no disco Noite Neon (1985) do mestre baiano. Entre suas favoritas, Hariel cita: “Acho que é o ‘Paradoxo’. Mas gosto de ‘Drão’ também.” Hoje, o artista também se desafia no empreendedorismo, com a Xaolin Records, selo que não visa apenas lançar novos talentos, mas prepará-los: O casting atual inclui Beatriz Denaro, MC Rah, Kaéss e Gabi Landim, numa proposta de revelar artistas e transmitir conhecimento.
A filosofia é clara: ensinar que “a parte chata é tão importante quanto saber cantar, quanto saber chutar o gol, quanto saber dançar, quanto saber pintar um quadro.” Para Hariel, o funk vai além do entretenimento – é instrumento de mudança social. “O funk foi encorajador na minha vida, então acho que ele pode encorajar vários outros também.”
Ele se mostra otimista com o futuro da cena, mas pede mais união. “A gente precisa ter um senso de movimento mesmo,” diz. “Ter noção que quando um manda bem, o outro manda bem também; quando um manda mal, infelizmente acaba respingando no outro.” O artista também é transparente ao analisar a própria trajetória: “Meu sonho, sem demagogia nenhuma, era, sei lá cantar para ser ouvido. Comprar uma caixa d’água, conseguir ter umas coisas básicas dentro de casa”, conta. “Eu nem sonhava muito grande assim. Tô aprendendo”.