Vitor Araújo leva experiência em trilhas de cinema para “TORÓ”, disco ao vivo com a Metropole Orkest

18/05/2026

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Por: Victor Thomé

Fotos: Divulgação/Manoel Borba

O pianista e compositor pernambucano Vitor Araújo, dono de trabalhos como a trilha sonora do aclamado longa brasileiro Que Horas Ela Volta?, assim como o álbum em conjunto de piano e voz com Arnaldo Antunes, Lágrimas ao Mar, retorna com uma gravação de arrepiar a espinha: seu novo disco realizado totalmente ao vivo no Holland Festival, Toró (2026), lançado em abril pelo selo Risco.

Reunindo forças com a lendária Metropole Orkest, de Amsterdã, regida pelo maestro estadunidense Jacomo Bairos, Araújo convida os mestres percussionistas do Morro da Conceição, em Recife, Amendoim e Aduni Guedes, além do guitarrista carioca Felipe Pacheco, do baterista e produtor franco-paulistano Charles Tixier e do multi-instrumentista catarinense Mauro Refosco. A parceria com a orquestra coloca Vitor Araújo no patamar de figuras como Ella Fitzgerald e Brian Eno, que também colaboraram com os holandeses.

Como resultado dessa parceria, temos um trabalho extremamente único e recheado de camadas, com influência direta da música pernambucana, bebendo na afrociberdelia de Chico Science e na grandeza das composições de Moacir Santos. Em alguns momentos, transita até para o eletrônico do Air e faz lembrar ares de Radiohead.

“Nos ensaios, a orquestra se empolgou muito com os resultados. É algo muito diferente para um músico europeu tocar com as percussões tão enraizadas em Pernambuco. Dessa empolgação veio a ideia de gravar a apresentação como filme e disco para ser lançado”, revelou Araújo.

Com amplas referências no mundo da trilha sonora, incluindo parcerias com Petra Costa no documentário Democracia em Vertigem, indicado ao Oscar, Vitor tem talento reconhecido desde muito jovem: começou a tocar com 9 anos e, com 19, lançou a estreia Toc – Ao vivo no Teatro de Santa Isabel (2008) — mesma idade em que levou o Prêmio APCA como artista revelação. Neste novo trabalho, o compositor demonstra um talento espetacular para criar paisagens sonoras de altíssimo impacto, experimentação e expressão narrativa, mesmo que de forma totalmente instrumental.

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E nessa combinação de elementos e culturas, a experimentação ampla e visceral em TORÓ deixa tudo mais especial, com a apresentação ao vivo, registrada para a história, como o furacão que vem e fica na memória de cada ouvinte.

Em tempo: o trabalho ganhou um filme, dirigido por Paulo Camacho e pela multiartista síria Yara Ktaish, para aumentar ainda mais a imersão na apresentação ao vivo.

Confira Toró faixa a faixa com próprio Vitor Araújo:

“TOQUE N.1”: Abertura e música que mais resume o título do disco. Ela é a expressão mais imagética-musical do que é essa magia do toró. Em Recife, parece quase um apocalipse: caem os pinguinhos, o céu te avisa e tudo desaba. Mas depois vai se abrindo, os pássaros voltam a cantar e as pessoas a olhar pela janela porque volta a clarear. Ela realmente tem esse aspecto grandioso, com um clímax que vai se construindo até os sete minutos. Me levou bastante tempo escrevendo essa orquestração.

“TOQUE N.3”: Muitas músicas neste disco nascem do ostinato, que é esse padrão que se repete, na música pop conhecido como ‘loop’. Aqui entram também os primeiros elementos eletrônicos, com o deleite de Charles Tixier improvisando no NPC. Aduni sugeriu que construíssemos em cima de um ijexá, principal clave utilizada pelas agremiações de afoxé no carnaval pernambucano, e aqui usamos de uma forma meio ultra-acelerada.

“TOQUE N.2”: “Sou apaixonado por usar rádio de pilha nas coisas. Essa é a música mais experimental do disco, composta dentro dos parâmetros do movimento minimalista. Usei o rádio como solista da orquestra, captando o que a frequência local de notícias da Holanda estava falando, e saiu perfeito. Parece até planejado, mas eu realmente não faço ideia do que estava sendo dito.”

“CANTO N.5”: Assim como a TOQUE N.3, essa é uma das músicas que têm ligação com o universo do pop experimental no eletrônico, nuances de Daft Punk, Air e até algumas coisas de Portishead. Eu ia tirar ela do repertório, mas o regente disse que ouviu em casa e achou linda. Tocamos e todo mundo adorou, e assim ficou.

“CANTO N.1”: “A que mais se aproxima dos meus estudos eruditos. Tem uma retórica próxima da música de concerto, bebendo desses compositores como Villa-Lobos, Rogério Duprat e do próprio Moacir Santos.”

“TOQUE N.4”: Música convencional para piano e cordas, muito singela. Compus para minha mãe, que ama música, a partir do que eu conhecia da personalidade dela. Aqui, o ostinato é a melodia da música, e por baixo dele tudo vai crescendo em volta. Gosto muito dessa peça.

“TOQUE N.6”: O apelido pra essa é ‘Tubarão’, com esse trombone sensacional que forma o ostinato. Com uma construção muito linda dos meninos na percussão, começando num toré indígena e caminhando até um bumba meu boi, finalizando com um coco violento. É muito linda, certamente uma das minhas preferidas.

“CANTO N.6”: Uma música mais melancólica. Vejo influência dessas bandas nórdicas como Sigur Rós. Muito etérea, as guitarras com essas notas longuíssimas carregando junto da voz esse mosaico de sonoridades. Uma levitação antes da pancada final.

“CANTO N.3”: Violenta. Sempre terminamos com ela e tem um grande impacto no público também. Aqui temos vários ostinatos que se acumulam, formando essa massa de coisas que vão se amontoando e afogando aquele ser cantante. Muito gostosa de tocar. Fico nos sintetizadores e toco ela em pé, num sentimento mais de show, muito quente mesmo.

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