Sem grana e ganhando a vida tocando em bares de São Paulo, Antônio Carlos Belchior tinha 29 anos quando entrou pela porta da Polygram, no Rio de Janeiro, para assinar contrato e, dias depois, gravar Alucinação (1976). O disco — que inclui clássicos como “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, “Como Nossos Pais”, “Sujeito de Sorte”, “Velha Roupa Colorida” e “A Palo Seco” — completa 50 anos em julho, preservando o vigor típico das obras atemporais.
Antes de aceitar o convite de um produtor musical para mostrar suas canções no Rio de Janeiro, o cearense — que completaria 80 anos no próximo 26 de outubro — já havia metido o pé na estrada like a rolling stone e descido do Norte para a cidade grande, a concreta e cinzenta São Paulo, a fim de tentar ganhar a vida como cantor e compositor.
Em 1974, ele estreou com Belchior, disco que reúne canções que, posteriormente, seriam reconhecidas como verdadeiras joias do repertório belchiano. Entre elas, “A Palo Seco” (que reapareceria no próprio Alucinação e, antes, saiu em um compacto de 1973), “Todo Sujo de Batom” (uma das maravilhas de Coração Selvagem, de 1977) e “Na Hora do Almoço”, vencedora, em 1971, do 4º Festival Universitário da MPB, promovido pela TV Tupi, nas vozes de Jorginho Telles e Jorge Nery.
Em 2023, Noize Record Club lançou “Belchior” (1974) em vinil
Quem recebeu Belchior na Polygram em 1976 foi o produtor musical Marco Mazzola. Aos 26 anos, Mazzola tinha no currículo trabalhos com Raul Seixas (Krig-ha, bandolo!, Gita e Novo Aeon), Elis Regina (Falso Brilhante), Rita Lee (Fruto Proibido), Gilberto Gil (Refazenda), Jair Rodrigues (Eu Sou o Samba) e Jorge Ben Jor (África Brasil), entre outros.
Se Elis Regina expôs o talento e a poesia de Belchior ao pinçar “Como Nossos Pais” e “Velha Roupa Colorida” para o espetáculo Falso Brilhante — que, em 1976, viraria o discaço de mesmo nome —, foi Mazzola, ao conhecer as músicas do compositor numa fita K-7 dada por Elis, quem bancou o bigodudo na Polygram. Mazzola pirou. Ficava perguntando: “Quem é esse cara? De onde ele vem?”.
“Sei que assim falando pensas / que esse desespero é moda em 76 / e eu quero é que esse canto torto / feito faca corte a carne de vocês” (“A Palo Seco”)
Em uma reunião com a direção artística da gravadora, após mostrar os temas de Belchior e a foto do moço, ouviu de um dos presentes: “Como você acha que um artista desse jeito, cantando anasalado e que não é bonito, pode fazer sucesso?”. Mazzola foi então ter um papo com André Midani, presidente da Polygram.
Midani, que levaria o produtor meses depois para a então novíssima WEA (junção da Warner-Elektra-Atlantic), usou a caneta de presidente da gravadora. Não fosse a confiança de Mazzola naquele novo artista e a interferência — imposição, na realidade — de Midani, Alucinação e Belchior não teriam acontecido.
Ao vivo é muito melhor
Marco Mazzola apostou alto e recrutou, sem que Belchior pudesse imaginar, uma verdadeira seleção: Pedrinho Bateria, Paulo Cesar (baixo), Antenor Gandra (violão, viola e guitarra) e Ariovaldo Contesini (percussão). José Roberto Bertrami (piano, órgão e sintetizador), do Azymuth, trabalhou na concepção dos arranjos, todos feitos na hora, no estúdio.
O álbum também contou com participações de Rick Ferreira (steel guitar em “Não Leve Flores” e violas em “Antes do Fim”), Orlando Silveira (acordeon em “Não Leve Flores” e “A Palo Seco”) e Lui (gaita em “Antes do Fim” e “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”), além do trio de vocais Regina, Maritza e Evinha em “Apenas Um Rapaz Latino-Americano”, como consta nos créditos do LP.
Com Belchior ao violão, os ensaios de Alucinação tiveram início numa quarta-feira ensolarada no Rio de Janeiro. As gravações — ao vivo, sem playback — aconteceram na sexta e no sábado.
“Quero desejar antes do fim / pra mim e os meus amigos / muito amor e tudo mais / que fiquem sempre jovens / e tenham as mãos limpas / e aprendam o delírio com coisas reais” (“Antes do Fim”)
No podcast Ouvindo Estrelas, Mazzola detalha a convivência com Belchior: “No estúdio, ele era um cara extremamente organizado. Eu falava ‘amanhã vai ser assim, assado’, e ele anotava em um caderno. No outro dia, ele dizia se ia dobrar ou violão ou não, ‘nessa música a gente vai fazer o violão de outra forma, a batida vai ser assim’.
O resultado do Alucinação é esse encaixe musical entre os músicos, ele e, modéstia à parte, a produção. Para mim, era um desafio muito grande pegar um artista em quem ninguém confiava e fazer com que ele pudesse acontecer. No final da gravação todo mundo se abraçou, foi realmente lindo. Naquele momento, eu disse: ‘e aí, como o disco vai chamar?’, e ele falou: ‘Alucinação’.”
Como afirma Jotabê Medeiros, biógrafo de Belchior, em entrevista à Noize publicada ao fim deste artigo, “o artista estava imbuído de uma rara convicção da profundidade de seu trabalho, uma postura que atravessa os anos, roçando a filosofia”.
O novo sempre vem
Segundo álbum de estúdio de Belchior, Alucinação ganhou, com o passar dos anos, o merecido status de obra-prima da nossa música popular, invariavelmente integrando as listas de melhores discos brasileiros de todos os tempos. Nele, Belchior embaralha influências de Bob Dylan, Beatles e Edgar Allan Poe; da violência distópica e banal de Laranja Mecânica e da poesia de Zé Limeira — autor dos versos “morri no ano passado, mas esse ano eu não morro”, adaptados pelo compositor e redescobertos pelas novas gerações.
Um diário com Belchior: a incrível história da fã que hospedou o artista
Na capa de Alucinação, vemos Belchior, em foto de Januário Garcia, sob efeitos de cores e luzes, ocupando todo o enquadramento. Há um ar cru e a expressão do cantor é ambígua: carrega certa inquietação, mas também sublimação; ele parece cansado ou em estado de transe. Psicodelicamente tropical e real, é uma das artes de disco mais marcantes da história da música popular brasileira.
“Tudo poderia ter mudado, sim / pelo trabalho que fizemos tu e eu / mas o dinheiro é cruel / e um vento forte levou os amigos / para longe das conversas / dos cafés e dos abrigos / e nossa esperança de jovens não aconteceu” (“Não Leve Flores”)
Musicalmente, é inútil cravar uma única definição para Alucinação, que se apoia no folk rock, no blues, no country e na cultura popular nordestina para criar o relicário poético-sonoro de Belchior. Alucinação é a realização da utopia do poeta: um disco que ficou para sempre jovem.
As experiências migratórias do cearense, a ironia afiada, o diálogo constante com a literatura, a angústia e a rebeldia próprias da juventude, o cronista que se depara com “os humilhados do parque com os seus jornais (…) e a solidão das pessoas dessas capitais”, como ele canta na canção-título — mas também a desobediência às normas sociais e a incessante busca pelo presente, ao mesmo tempo em que proclama a ruptura com o passado — dão ao álbum um tom profundamente pessoal.
Cinquenta anos depois do lançamento do disco, a voz rouca anasalada ainda soa desafiadora quando, em meio às distorções da guitarra de Antenor em “Fotografia 3×4”, Belchior, demasiado humano, afirma, repetidamente, como num mantra: “Eu sou como você, eu sou como você, eu sou como você (que me ouve agora)”.
Confira o papo com jornalista e escritor Jotabê Medeiros, autor de Belchior – Apenas um Rapaz Latino-
Americano (Editora Todavia, 2017).
Com que peso — histórico, estético, musical, por aí vai — podemos colocar Alucinação na discografia da música popular brasileira e como o álbum chega a esse aniversário de 50 anos?
Alucinação, por uma série de fatores, é aquilo que podemos destacar como uma obra-prima, um disco que é perfeito da primeira à última música e que, curiosamente, não se concebe tocar de outro jeito senão na ordem em que Belchior dispôs as faixas. Tudo está no seu devido lugar. O mais assombroso é que nada envelheceu, nem os arranjos, nem as letras, nem as ideias. Eu defendo que Alucinação é uma decorrência do primeiro disco, de 1974, o concretista Mote & Glosa, e ao mesmo tempo se desdobra nos três discos seguintes, também irretocáveis.
Em que medida Alucinação dialoga com o desencanto da geração pós-anos 1960?
Do ponto de vista da temática, o artista examina com ternura temas prementes da juventude — os sonhos desfeitos, a traição geracional, a mão implacável da autoridade, os desencontros amorosos — ao mesmo tempo que materializa as sombras da ditadura. Há um jeito de se dirigir aos jovens na abordagem de Belchior que fascina e pede exame constante, com paciência e reflexão, como koans do zen-budismo. “Que as lágrimas dos jovens são fortes como um segredo / Podem fazer renascer um mal antigo.” Alucinação está sempre nas listas de melhores discos da música brasileira de todos os tempos. O disco captura o espírito de seu tempo, mas continua atual.
O que faz desse álbum um marco da música brasileira?
Há 50 anos, em 1976, saíram discos fundamentais de artistas da MPB, como África Brasil (Jorge Ben Jor), Milton (Milton Nascimento), A Voz, o Violão, a Música de Djavan (Djavan). Acredito que, no meio dessas joias, Alucinação surge quase como um desvio de rota — uma inclinação para o lado do folk e do country norte-americanos, para a distopia de Laranja Mecânica e ao mesmo tempo para a cultura popular de Zé Limeira e a poesia moderna de Carlos Drummond de Andrade.
Essa pode ser uma das razões da longevidade, mas o artista também estava imbuído de uma rara convicção da profundidade de seu trabalho, uma postura que atravessa os anos, roçando a filosofia. “As palavras novas são as mais velhas dentro da gente. As que falam mais radicalmente do que é humano.” Há muitos anzóis na arte de Belchior fisgando a gente.
Que tipo de escuta o disco provoca hoje?
Acredito que há um espanto, um assombro de quem ouve pela primeira vez os versos de liberação de Belchior. Um único disco pode conter um mundo de poesia e visões do mundo. E ainda é algo que não tem um sucedâneo, um artista com tal envergadura e profundidade. Isso explica a quantidade de jovens que se apaixonaram pelo disco em todo o Brasil.
Qual é a influência de Alucinação na música brasileira contemporânea?
Boa parte dos artistas que poderíamos chamar de emergentes hoje demonstra paixão pelo disco — dos capixabas André Prando e Juliano Gauche aos paulistanos Tatá Aeroplano e Tim Bernardes, da niteroiense Daíra aos cearenses Nayra Costa e Mateus Fazeno Rock, do carioca Bala Desejo ao pernambucano Jorge du Peixe.
Nas suas pesquisas para a biografia de Belchior, especificamente sobre o período de composição e gravação de Alucinação, o que lhe chamou mais atenção?
Acho que foi a descoberta progressiva do engajamento político dele. Era um dos mais atentos observadores da política no Brasil, das mudanças que vinham acontecendo com o ativismo e a militância. Observava o que acontecia no ABC paulista, com os metalúrgicos, e a movimentação do ambientalismo, que gestava o Partido Verde. Lutava pela garantia de direitos autorais. Subiu no palanque das Diretas Já. Esse aspecto ainda está por ser examinado mais atentamente.

