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Conheça o selo Amor in Sound, do mesmo produtor dos Beastie Boys, Mario Caldato Jr.
19/05/2026
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Por: Damy Coelho
Fotos: Samantha Caldato
Quem analisar as fichas técnicas de clássicos comoIII Communication(1994), dos Beastie Boys, Os Cães Ladram Mas a Caravana Não Pára, do Planet Hemp (1997) e Samba Esporte Fino/Carolina (2001), de Seu Jorge, vai notar um nome em comum: Mario Caldato Jr. O brasileiro criado em Los Angeles, considerado um dos mestres da produção musical, esteve ligado a diferentes projetos antes de criar o seu próprio selo, Amor In Sound, ao lado da companheira de vida e de trabalho, Samantha Caldato.
A produtora cultural está por trás de uma das primeiras compilações de música brasileira,Favela Chic – Posto Nove 1 (2001), e já colaborou com Black Alien, D2, entre outros nomes.
A empreitada surge do desejo de se conectarem com a música brasileira e gravar os artistas em que acreditam. Eles vivem em Los Angeles, na mesma casa que serve de estúdio. Lá costuma ser ponto de encontro de amigos e o ambiente caseiro é a tônica da label. No meio dele, por exemplo, tem uma cozinha. Era comum ver Seu Jorge mexendo no feijão, enquanto Mario masterizava um som. “É um clima bem legal. Quando nossos amigos vêm nos visitar, sempre acabamos gravando alguma coisa”, diz o produtor.
“A casa sempre foi importante para mim”, completa Samantha. “Esse abrir da casa, essa estrutura, é o que eu conheço como modo de vida: receber as pessoas pro almoço de domingo, juntar os amigos”. Desde o início, a música do engenheiro de som nasceu no ambiente doméstico. Foi do seu home studio que co-produziu os beats dos Beastie Boys, por exemplo. Tudo começou quando ele ainda era adolescente.
“Meu amigo Manny Mark (Mark Nashira) me ajudou a montar o primeiro estúdio: trouxe equipamentos de gravação, uma máquina de quatro canais e a gente deixava os instrumentos em volta, usando tudo à vontade”, lembra. Após trabalhar com artistas que iam de Blur e Björk a Marisa Monte e Jack Johnson, o casal quis fazer música do jeito deles — sem amarras de prazos, contratos ou seleção artística de grandes gravadoras. Samantha nos conta:
“Nós estávamos trabalhando em projetos grandes, mas sem ver perspectiva naquilo. Compensava financeiramente, mas faltava espírito, verdade. E tínhamos uma rede maravilhosa de músicos e amigos. Por que não juntar tudo isso?”
“Vamos criar esse lugar onde a gente possa trabalhar nos projetos que a gente quer. Pelo menos, a gente faz um catálogo, porque nós temos todos os meios de produção aqui – o estúdio, o Mario, o melhor produtor e ainda fazemos a masterização”.
A Amor In Sound, então, nasce na nova casa dos dois. Um dos intuitos é valorizar a memória da música afro-brasileira. O primeiro álbum, Orquestra Afro-Brasileira 80 Anos(2021), foi o último gravado com Carlos Negreiros. Depois, veio a edição de remixes, em 2025, com releituras de Emicida, Marcelo D2, Criolo, Tropkillaz eLúcio Maia.
Tem ainda projeto Pra Gira Girar, que celebra Os Tincoãs com Álvaro Lancelotti, Alan de Deus, Anna Magalhães, Diogo Gomes, Michele Leal, Pedro Costa, Kassin, Zé Manoel e Zero Telles. O selo assina Arruda, Alfazema e Guiné (2024), de Lancellotti, e o álbum de estreia autointitulado de Pupillo, em 2026.
Tudo muito natural
O começo dessa história de amor remonta ao Rio de Janeiro do fim dos anos 1990. Ele já tinha produzido o segundo álbum do Planet Hemp, enquanto Samantha tocava com o Black Alien. Já são 27 anos de casados. “Admiro muito a Samantha”, conta Mario.
“Compartilhamos o mesmo amor e carinho pela música e pelos amigos. Essa conexão existe desde quando nos conhecemos. Os amigos dela também são meus amigos, e os meus são dela – é algo natural, essa sintonia, essa vibração em torno da música”.
O primeiro projeto nasceu da urgência de registrar o último trabalho da Orquestra Afro-Brasileira com um de seus fundadores, Negreiros, ainda em vida. “Fui a um ensaio da Orquestra Afro-Brasileira numa loja de percussão no Rio. Cheguei lá e tinham uns quatro caras tocando percussão com o Carlos Negreiros cantando. Fiquei em choque, arrepiado. Era muito poderosa a batida com o vocal do Negreiros. Obviamente eu pensei que isso precisava ser preservado e gravado”, conta Mario.
A gravação aconteceu no estúdio de Berna Ceppas, no Rio de Janeiro. O álbum saiu em parceria com um selo inglês, mas já carregava o espírito do que se consolidava na gravadora. Natural também foi o nascimento do The Other Side, em 2009.
O produtor convidou o arranjador Miguel Atwood-Ferguson para trabalhar na versão voz e violão de “Girl You Move Me”. “Todo mundo ficou muito surpreso com o trabalho dele, da mágica que ele criou”, explica Mario sobre a semente do álbum.
Anos depois, gravaram “Vento de Maio” e “Far From the Sea”, mas o projeto ainda levaria tempo até ser concluído. Foi só em 2018, quando ele montou um novo estúdio, que o disco avançou. Em uma semana, gravaram tudo ao vivo, antes de acrescentar vozes e os arranjos finais.
Depois, vieram “Riverman”, releitura de Nick Drake com participação de Beck, com quem Seu Jorge já havia trabalhado no remix de “Tropicália”, em 2011. Fã declarado, o americano aceitou o convite de imediato e gravou sua parte durante a pandemia, no seu próprio estúdio. “Nem precisei falar muito, ele já sabia o sentimento da música”, lembra Mario.
“Fazer tudo o que o Seu Jorge sonhou e construiu não é simples — esse business é muito difícil”, diz Samantha. “Ele sempre conduziu tudo com muita visão, e um dos motivos desse disco ter demorado para sair não tem a ver com a gravação ou finalização, mas com as escolhas que fizemos no caminho. As decisões tomadas também tem como base o ideal que temos da Amor in Sound”.
Mas nem tudo foram flores para o selo. “Seu Jorge tem essa voz única, você reconhece de cara. Mas aí, em toda reunião que tinha para apresentar o selo, as pessoas queriam o lançamento dele. Eu ficava: ‘não é possível que vocês não se interessem por esse catálogo’. Se não interessava, então eu também saía fora, beleza, tchau”, resume.
A recusa em seguir apenas o que parecia mais seguro é também uma afirmação de identidade: “O Brasil é um pluriverso, e é muito importante que as narrativas dessa diversidade continuem e se façam cada vez mais presentes na nossa história”.
“Eu prefiro viver de uma maneira onde a gente possa criar novos mundos, como já diz Krenak. Essas novas maneiras importam, as ideias que a gente escolhe realizar”, diz Samantha. “E a gente está realizando. Talvez muitos digam que é utopia, mas essas ideias já estão na agulha. É só dar o play”.