As dez faixas que dão corpo a Esgotada, novo álbum de estúdio de Tiê após nove anos, propõem um pacto de vulnerabilidade com o ouvinte. Cada canção se desenha como uma crônica particular, costurando lutos gestacionais, maternidade e dinâmicas afetivas. A cantora já adiantou que este é o primeiro ato de seu disco, dividido em duas partes. O próximo será Amorosa, previsto para o segundo semestre.
A retomada vem no momento em que a cantora volta pra carreira independente. “Entendi que não fazia sentido estar numa gravadora onde eu ficava sem turma. Queria ser dona dos meus fonogramas”, conta.
No meio tempo desse hiato, a pandemia veio, depois de dois lutos gestacionais intensos e solitários.
“A gente fala muito sobre aborto, mas o aborto espontâneo não é falado. É uma dor enorme, que muitas vezes nem o companheiro consegue acompanhar”.
Tiê continua. “Depois veio a Rosinha, terceira maternidade, já com duas adolescentes em casa”, diz a cantora. “Tudo isso me fez questionar muita coisa — ser mãe de três mulheres nesse mundo, o excesso de informação, essa sensação de um passo pra frente e um pra trás. Desse esgotamento, nasceu o nome do disco”.
Ainda que o tom reflexivo predomine, o álbum encontra respiros de movimento. Faixas como “Contato” rompem a inércia, fazendo o ouvinte levantar da cadeira e dançar.
A cantora leva toda essa força e intimidade também para o conceito da capa: a partir de uma fotografia em filme feita por Indira Dominici, a cantora pediu à artista e amiga de infância, Marina Quintanilha, para imaginar a capa como uma pintura.
Tiê ainda montou um time de criadores e músicos de gala: a direção de estúdio e a produção central ficaram sob os cuidados de André Whoong, dividindo arranjos pontuais com nomes como Tó Brandileone e o guitarrista Felipe Coimbra. A lista de colaboradores expande o ecossistema do álbum através de parcerias com Adriana Calcanhotto (em “Atitude”), Vinícius Calderone, Rafael Infante, Adriano Sintra eRita Wainer, além de Antônio Adolfo, Jamil Joanes e o pianista Marcos Romeira.
Abaixo, Tiê destrincha as histórias e os bastidores por trás de cada composição.
“Minha História“: A inspiração surgiu em uma madrugada reflexiva sobre a idade e a impossibilidade de voltar no tempo. Podemos nos arrepender, questionar as decisões, mas o que resta é celebrar. Conversei com o André; ele adicionou na harmonia e fizemos a composição.
Mensagem de Voz (part. Rafael Infante): “Minha luta, minha glória” é uma menção ao Chorão — eu era muito fã dele, e uma vez soube que ele também parecia ser fã meu. Era uma pessoa muito emotiva, chorava com as minhas músicas, então, resolvi colocar isso ali. Também conto histórias: minha aula de dança, de improvisação cênica, que fiz por mais de 10 anos, e o Desenhando Invisível, que é um projeto do Bitch U Mummy do qual eu fiz parte e onde conheci mulheres maravilhosas.
Contato: Essa nasceu em 2019, tem parceria da Liz, minha filha. Ela tinha uns 9 anos na época, passou e completou uma frase sobre o espaço sideral. Eu estava no universo do Carl Sagan e achei aquela conexão maravilhosa. Na música eu fantasio uma briga com André, que já era meu namorado, aquela coisa de quando termina com alguém e você não sabe mais o que é seu, o que é dele, o que era dos dois. E tem uma parte muito importante pra mim: é a primeira vez que eu falo sobre um abuso que sofri numa letra de música. “Essa parte do espaço sideral que você me prometeu, eu pedi, isso é normal o que me aconteceu?” — porque a gente às vezes segue em frente fingindo que foi normal, quando normal não é.
Poder falar sobre isso numa canção foi muito significativo. E de uma forma leve, ainda, com Antônio Adolfo, Jamel Joanes, Silvane Sivuca na percussão — músicos que eu sempre quis ter do meu lado. É uma música muito especial.
Atitude (part. Adriana Calcanhotto): Foi assim: quando o André começou a produzir, eu já enxerguei a participação da Adriana. A gente estava se falando sobre fazer uma música juntas, então a convidei para completar com versos. A música fala sobre ter a atitude de assumir o próprio B.O — reconhecer o erro, tomar responsabilidade pelo que é seu. “Eu errei, mas posso corrigir e devolvo o que é seu” — num lugar positivo, de quem assume e segue em frente. A Adriana entrou lindamente, fez um verso muito bacana, e a parceria ficou incrível. É uma mulher que eu sempre admirei muito, sempre fui muito fã. Então isso, com certeza, é um presente.
Ainda: Faixa belíssima da Bárbara O’Hara e do Adriano Sintra. O Adriano é meu parceiro em vários projetos — desde a produção de Esmeraldas até a Letra da Noite, que fizemos juntos com a Rita, o André e o Giuseppe Anastasia. Quando ele me mostrou essa canção, acho que em 2019 ou 2020, fiquei encantadíssima e pedi de presente — e eles me deram a liberdade de gravar. O piano é do Marcos Romeu, o mesmo pianista de “A Noite”, e foi gravada ao vivo, o que traz uma emoção completamente diferente. Eu adoro gravar ao vivo, mesmo desafinando e chorando — é muita emoção junta. Mas acho que é exatamente isso que enriquece.
Altar: Altar é uma parceria minha com a Rita Weiner, com um complemento de letra do André. Fala sobre essa troca de amizade e tudo que a gente faz pra tentar manter a saúde emocional — chá de lavanda, analista, cartas na mesa, banho de mel, uma mistura de coisas. Mas o verdadeiro altar, pra mim, é a amizade. É poder ter uma amiga que te liga e fala: “O que você precisar, a gente dá um jeito, porque a gente sempre dá.” E é isso que a Rita faz. A gente já tem parceria de longa data, e virou minha grande amiga.
Tanto Faz: Tanto Faz… é uma viagem. Uma música que veio de um estado meio derretido, sabe? A letra já explica tudo por si mesma. Ela nasceu no final do processo, em parceria com o André — a gente fez a letra junto, num momento de muito entrosamento já, depois que a produção do disco tinha engrenado. Foi ótimo fazer.
A Verdade Dói: Essa talvez tenha dado um pouco mais de trabalho na letra. O arranjo ficou definido logo no começo — o André começou, depois o Coimbra fez umas guitarras lindas no estúdio do Tó. A primeira parte da letra eu e o André fizemos juntos, e pra segunda chamei o Vinícius Calderone, que trouxe uma poesia bem diferente, com o estilo dele, o que enriqueceu muito e colocou a música num outro lugar.
O Vini vem mais do teatro — inclusive a gente o chamou para o show de lançamento do disco, que é todo mais teatral. Essa dramaturgia fica clara na letra. E a música é sobre isso: como a gente às vezes engole coisas que precisam ser ditas, e como é importante falar, se entender, procurar os silêncios.
Tempo Pra Mim: O disco fecha com “Tempo para Mim”, uma encomenda que fiz ao Thomas Roth — compositor de “Quero”, do Falso Brilhante da Elis Regina, disco que ouvi muito na infância e que acho que plantou a sementinha pra eu me tornar cantora. Anos depois nos conhecemos, viramos grandes amigos, e eu pedi: “Quero uma música sobre o meu cansaço, as minhas histórias, as minhas filhas, as minhas escolhas.” Ele me deu de presente, eu adaptei a letra pra ficar com a minha cara, e ficou muito especial.